Quando uma imagem vale mais que mil palavras

"O Lugar da Casa é o tema geral do Festival Literário da Gardunha, que irá decorrer entre os dias 29 de outubro e 1 de novembro de 2026 e juntar, na cidade do Fundão, escritores e ensaístas. Esta iniciativa irá contar, ao longo de quatro dias, com concertos, teatros, exposições, oficinas, sessões de contos, performances e workshops."

A imagem acima não só enquadra a informação em itálico (difundida nas redes sociais, no Facebook do Município do Fundão com labaredas de entusiasmo) quanto é marca do Festival Literário da Gardunha, que, nestes dias, se realiza na cidade do Fundão. Excelente tema, belíssima imagem. Imagem que retrata um pormenor (num cruzamento) da rua central de uma aldeia (Quintãs) das três aldeias que constituem os Três Povos - uma rua com espaços públicos: largo, capela (dizem-me que também sítio arqueológico entre muitos outros), chafariz, solar da comunidade, centro de assistência social - no concelho do Fundão. O local, que a imagem mostra, mora no cruzamento da rua do forno (de pão) com a rua do forninho (de bolos) - memórias de dois fornos desaparecidos e esquecidos - coexistem e contemplam-se mutuamente no primeiro quartel do do século XXI: uma casa da primeira metade do século XIX e um chafariz da primeira metade do século XX. Perante tal, uma pergunta se perfila como mote para um texto literário ou até como base para uma conferência a realizar num próximo festival literário: como é possível aceitar a ideia de que é possível a coexistência de tempos culturais tão diferentes numa imagem? Para tentar responder, entremos dentro da imagem, no jeito de quem procura os segredos que nela se escondem. Assim: (1) um pálido e amarelado fantasma da casa em frente ao chafariz (que nos olha) esconde memórias de vida agrícola desafogada e mostra a urgência de políticas públicas de recuperação das aldeias no concelho do Fundão; (2) a robustez da pedra do tanque do chafariz, alimentada pela água em repouso e pela água no seu jorrar sonoro e límpido e granular, esconde o tegumento de conversas, mexericos, namoros, tristezas e alegrias e ruídos de pessoas a passar da rua, tegumento de que o chafariz se vem despojando nos últimos anos, anos em que tem sido votado ao abandono (quem foi que falou em proteger o património público?!). Pergunta-se a propósito: (1) não será de convidar alguns participantes do Festival Literário da Gardunha, com curiosidade a tiracolo e com um texto de Heidegger no bolso, a vaguear em Três Povos, em busca do tempo perdido (alô, Marcel Proust!)?; (2) qual a dificuldade em perceber que a imagem convida também os poderes políticos a, de forma criativa, olharem para a riqueza cultural (um bem cultural é sempre um bem económico) das aldeias?, (consulte-se e pasme-se!, que é feito de tanto dinheiro?, e os resultados?). Adiante... A forma mais poderosa que forjou a civilização, a forma que fez sair os seres humanos das cavernas e que os libertou da adoração dos faraós (e afins) foi a curiosidade. Assim sendo, quicá a imagem seja (quem sabe!) um sinal de que o "Lugar da Casa" também possa vir a ser o nome de um próximo futuro "Festival Histórico, Artístico e Literário e Económico e Filosófico e Científico e Tecnológico" sobre "Os Três Povos do Livro" - Judeus, Cristãos, Muçulmanos", um festival que incentive a curiosidade de várias entidades (públicas e privadas) e que possa contribuir para a recuperação e para a revitalização, criativa e económica, de três aldeias, Três Povos, localizadas no coração da ubérrima Cova da Beira.

Adenda, com memória e memória e memória, e ainda.

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