domingo, 7 de março de 2021

Um livro diamante: a branca voz da solidão
















"É tudo que hoje tenho para dar-te

Isto – e meu coração

Isto, e meu coração, e mais os campos

E prados na amplidão

Não te percas na conta – se eu esqueço

Alguém tem de lembrar

Isto, e meu coração, e cada Abelha

Que no Trevo morar."


Emily Dickinson, in A Branca Voz da Solidão, Tradução de José Lira

Adenda - Eis - aqui - um estudo sobre algo tão complexo como a evolução da linguagem humana..., e ainda também.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Caspar David Friedrich: "Woman before the Rising Sun"
















Depois da nossa conversa de trasantontem, bom dia (ups, quase me esquecia de novo!), lhe mostro agora uma outra pintura de Caspar David Friedrich, "Woman before the Rising Sun". Fiz que não ouvi a voz que sempre (que pontualidade pontual!) me acorda todos e cada dia. Olhei a imagem antes de lhe responder, e: até que gosto, ao primeiro olhar fico com a ideia de que me é algo familiar e próximo, parece esconder e mostrar a beleza intemporal que mora nas elegantes senhoras dos quadros e das pinturas. Claro que lhe é familiar, retorquiu de mansinho, mostro-lhe esta pintura (um sorrisinho assomou-se devagar) porque tenho quase a certeza de que ontem ralhou com o sol e não o devia ter feito. Eu ontem ralhei com o sol, interrompi, tenha dó, a sua imaginação não tem limites. Seja, anuiu, desejo que tenha um dia calmo, mas tenha paciência, vou ler o que agora está a ser gravado na sua mente, isto: "sinto-me no promontório do pensamento, perscrutando o mais claramente que posso o horizonte dos limites das coisas ou da força do olhar". Essa é a legenda pintura? Arrisquei. Legenda não, mensagem sim, oraculou, e foi-se embora sem se despedir. Amanhã, antes do sol nascente, não se safará de um ralhete, seja eu ceguinho de gota serena se tal não acontecer, oxalá ela se cuide!

quarta-feira, 3 de março de 2021

O mistério é o fundamento existencial e divino da beleza























Ainda se recorda de em tempos lhe ter garantido que nas obras de arte viajam passageiros clandestinos? Ora aqui está uma pergunta que traz água no bico, dei comigo a pensar ao ouvir a voz que dia sim dia sim me acorda pela manhã. Respondi-lhe: bom dia para si também, claro que sim, recordo, e tanto o recordo que até sei que a imagem que projectou na parede branca do meu quarto com janelas guilhotina é de Christiane Caroline Bommer pintada por Caspar David Friedrich, conheço um avatar da Christiane, tal e qual, uma avatar chapadinho. Olha-me este, suspirou a voz, olha-me este a armar-se ao pingarelho, tu queres ver que dormiu com os pés de fora, e: essa sua certeza livresca deixa-me de cara à banda. Uma voz tem cara? Pode lá ser!, desabafei com os meus botões. E ela continuou: acaso não lhe ocorre que até no ser menos vivo existe um momento de aparência desde que seja essencialmente belo e que tal acontece com as obras de arte? Fiquei-me. E ela: em toda a obra de arte está presente aquela aparência que permanece, seja, a aparência é uma zona de proximidade e demarcação em relação à vida. Não percebo, retorqui. Surpresa minha nenhuma, trauteou. Saiba que a beleza não é, como afirmam uns filosofemas banais, em si mesma aparência, a beleza não é fenómeno e nem uma capa para uma coisa qualquer, mas é totalmente essência, ainda que uma essência que só permanece igual a si mesma sob a capa desse véu que a encobre, a beleza é a verdade tornada visível. Atarantado, e sem saber o que dizer lá arrisquei: acaba de me explicar que a beleza intemporal é uma passageira clandestina que viaja que viaja nas obras de arte? Interessante a sua pergunta, respondeu, a sua pergunta aproxima-se do fundamento da antiquíssima intuição de que, ao ser desvelado, o que estava escondido se transforma, de que só permanece igual "igual a si próprio" sob a sua capa, a ideia do desvelamento transforma-se na impossibilidade do desvelamento. Charadas e mistérios seus, ripostei, estou a tirar água à nora e sem água nos alcatruzes. Fez-me sorrir, exclamou divertida, o mistério (que não as charadas) é o fundamento existencial e divino da beleza, tenha um bom dia, gostei muito da sua iluminação profana. Quando acordei, prometi-me: vou de carreirinha saber o que é uma iluminação profana, será uma iluminação profana o modo próprio de a revelação dissolver mistérios?

segunda-feira, 1 de março de 2021

Adiante, adiante que ainda há milagres!





































Em tempo de "democracia suspensa" - maldita pandemia Covid-19! - a paciência esgota-se e o desemprego e a pobreza e a miséria ameaçam já muitos seres humanos (especialmente os mais frágeis) neste canto à beira mar plantado (e por esse vasto mundo fora também). É um tempo sem certezas e sem segurança, um tempo de perigo e de pessismo, um tempo em que medos e aflições e quejandos escaparam de uma desgraçada caixa de pandora, um tempo em que o regulamentado (obediência, máscaras, coimas), o dito novo normal alimentado por vedetas mediáticas que quase ninguém afronta e contesta, é o pão nosso de cada dia. Mas, adiante, há que não dar o braço a torcer, adiante que ainda há milagres, um deles: o efeito emocional de um ramo de flores. Quem disser o contrário, é certo e sabido que se passou dos carretos e não sabe o que vê e o que toca e nem sabe o que sente e o que diz.

Adenda
A propósito de tempo: o que é que o sentido do tacto tem a ver com a percepção do tempo?