Tentando decifrar o mistério da mulher-ave
Por vezes, por mais surpreendente que pareça, acontece darmos de caras com um mistério e com uma experiência de beleza humana a acontecerem ao mesmo tempo. Acontece, por exemplo, quando, olhando para a estatueta de uma mulher-ave (com cerca de 12000 anos), se constata estar perante um mistério e perante uma experiência de beleza. O mistério designa o quê? A palavra mistério tem origem na palavra latina "mysterium" e na palavra grega "mysterion" ((do verbo "myo" (ocultar, fechar), significando algo escondido e difícil de entender)); e a beleza desempenha um papel indispensável na configuração do nosso mundo. O mistério e a beleza escondem-se e mostram as faces na estatueta de uma mulher-ave (pouco mais alta que uma polegada). Adiante: (1) devemos mandar a pareidolia dar uma volta, ou não?; (2) se, tendo presente o que aqui se diz, nos aventurarmos na cultura natufiana adentro, perderemos o norte no epipaleolítico?; (3) sabendo-se que se trata de uma obra arte (cozida a 400 ºC), com impressão digital de autor(a), podemos olhar para ela como uma mensagem de beleza, há muito tempo escrita, que agora nos aparece no tempo certo? A resposta curta é a de que não sei. Porém, parece-me, a necessidade filosófica mais urgente é a de entender (e compreender) a natureza e o significado da força que, em tempos remotos, manteve o mundo unido e que, nos tempos que correm, está a perder o seu controlo, a espantosa força da religião. Se assim é (se assim for), aquela estatueta, que levou 12000 anos a aparecer, é uma marca/resíduo espiritual do sentimento religioso que animava a cultura natufiana. Porquê? Porque já se começa a ter consciência que o actual quadro científico dos seres humanos substituiu o antigo quadro teológico: de facto, aquele quadro científico desmoralizou o mundo apagando a marca da liberdade humana, e um mundo desmoralizado não é o verdadeiro mundo. Concluindo... No mistério e na experiência de beleza (que nos diz que neste mundo estamos em casa) o mundo regressa a casa, para junto de nós e nós para junto do mundo, e regressa de uma forma especial - apresentando-se e não para ser usado, regressa apresentando-se para, e também através da música, nos guiar para a verdade (nua) da condição humana, sem mordaças e sem bazófias e sem antolhos ou camisas-de-forças.

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