Quando os portugueses chegaram a Calecute
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"Não havia reis cristãos. E as especiarias tinham de ser pagas. O que tinham os portugueses para trocar? (Vasco) da Gama desembrulhou os presentes que trazia para impressionar o rei, o hindu Samoothiri, "o Senhor do Oceano": doze peças de tecidos às riscas, quatro capuzes escarlates, seis chapéus, quatro pedaços de coral, seis bacias, uma caixa de açucar, dois barris de mel e dois de azeite. Quando as viu, o funcionário do Samoothiri soltou gargalhadas; o mais humilde dos mercadores de Meca trazia presentes mais valiosos do que o rei de Portugal. Recusou-se a sequer os apresentar perante o seu senhor.
Aquela era uma cidade comercial, e o seu soberano era um comerciante. Calecute, com os seus vastos templos e palácios, as suas multidões incontáveis e a sua mistura de judeus, muçulmanos, hindus e budistas fazia Lisboa parecer provinciana. Os comerciantes vinham de todos os lados dos mares das monções, como tinham feito ao longo de um milénio, trazendo mercadorias valiosas. O Samoothiri beneficiava do comércio livre, cobrando taxas às centenas de navios que usavam Calecute como a mais importante metrópole de transbordo no Oceano Índico. Não tinha qualquer interesse em tratrar de forma diplomática e polida os representantes de um rei de um país longínquo que nada tinha para oferecer em termos de negócio.
E não foi apenas o Samoothiri. Quando viram os bens portugueses, os mercadores muçulmanos de Calecute limitaram-se a cuspir e a gozar, entoando "Portugal! Portugal!". Numa cidade onde a riqueza do mundo, da China a Veneza, se empilhava nos mercados, ninguém queria comprar o que os europeus tinham trazido; náo era de admirar que uma camisa de bom traço que valia trezentos réis em Lisboa não custasse mais que trinta réis em Calecute. Uma saca de especiarias, em contraste, custava dois cruzados em Calecute e trinta em Lisboa."
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Ben Wilson, METRÓPOLES, Desassossego, Lisboa, 2021, pág, 190

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