É nos pormenores da vida quotidiana, no Antropoceno, que o "Princípio da Leveza" faz o seu trabalho
Depois da primeira volta das eleições presidenciais, em Portugal, a julgar pelo que ouço e pelo que leio e pelo que penso, a decisão a tomar, na segunda volta, não parece ser difícil. Por três razões. A primeira razão: a seu favor, socorro-me de um velho brocardo; "na primeira volta das eleições escolhe-se, na segunda volta elimina-se". A segunda razão: existe uma diferença de monta entre os dois candidatos: um deles, aprendeu durante dez anos o valor do silêncio; o outro, aprendeu durante seis anos o valor da berraria; e eu, no nosso tempo de aligeiramento da vida, prefiro o silêncio à berraria. A terceira razão: creio que apenas um dos candidatos tem consciência das etapas (fundadas na alma do Iluminismo: razão, ciência, humanismo, progresso) que causaram o tempo de aligeiramento da vida, estas: (i) do século XVIII a meados do século XIX: a vontade tecno política de reduzir a pressão das necessidades materiais elementares; (ii) com início nos anos 50 do século XX: a difusão do bem estar material, do consumismo das massas e da emancipação dos indivíduos em relação aos grandes enquadramentos políticos; (iii) o tempo em que vivemos, tempo impulsionado pela alta tecnologia electrónica e digital.
Assim sendo, cereja em cima do bolo, concluo. Concluo, dizendo ainda que, no tempo de aligeiramento da vida que nos coube, o próximo Presidente da República deverá falar menos do que o atual Presidente da República, ora porque o silêncio é de ouro ora porque quando se fala muito, a toda a hora e sobre tudo e nada, ninguém já liga ao que se diz (a bom entendedor!).
Nem mais!, soprou-me a minha consciência crítica, importa prosseguir a obra secular do aligeiramento da vida, regista que, depois de mais de dois séculos de profecias progressistas, a economia de mercado se esforçou por assegurar a vitória da leveza materialista sobre o peso do necessário. Siderado, embatuquei, mas senti-me a aproximar da ideia de que é nos pormenores da vida quotidiana, no Antropoceno, que o "Princípio da Leveza" faz o seu trabalho. Guardei ainda uns minutos para revisitar o pensamento de Zygmunt Bauman, mas uma pergunta atrevida barrou-me o caminho: quem foi que falou em "recuo da leveza do ser"?

Comentários
Enviar um comentário