Um detractor inteligente

Sempre que parece que a estupidez
assentou arraiais em Portugal, vem à baila (sem pedir licença) um livro de Jorge
de Sena: o reino da estupidez. Jorge
de Sena foi um detractor inteligente de Portugal. Mas o facto de ser considerado um detractor inteligente, sente-se melhor na sua poesia do que na sua prosa (um comentário sobre "o reino da estupidez" fica para um outro dia)... Exemplo significativo é o virulento poema "Portugal":
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
e mesquinhez, de fátua ignorância;
erra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra
de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Adenda (mensagem recebida)
Adenda (mensagem recebida)
Rica peça, meu caro, rica peça o Jorge
de Sena, rica peça, melhor que ele só o Eça... "Rica peça, melhor só o Eça", saiu-me, meu caro, mas gosto, gosto, gosto. Adiante. Sabe que conheço uma carta interessante que a Sophia (pois claro, é essa mesmo, essa mulher-poeta em quem está a pensar) lhe escreveu, em 1962? Não conhece a carta? Olha a admiração! O livro "o reino da estupidez" é de 1961, pois não é? Calma, tenha calma, eu transcrevo-lhe a carta da Sophia; mas, quando tiver tempo, comente o conteúdo ou fale comigo; falar comigo será bem melhor, apareça...
“7 de Novembro de 1962
Caríssimo Jorge
Afinal só agora, por prudência, mando a carta. Como a Pide levou de
minha casa todas as suas cartas tenho medo que o correio esteja muito vigiado
agora.
O Francisco e eu somos agora os redactores principais (mas não os
únicos) da Távola. Peço-lhe que me
diga se pode mandar colaboração regular, isto é, uma vez por mês. Mas mande
desde já toda a colaboração que tiver. O poema seu que cá tenho (mandado por si
para a minha revista, que, por falta de autorização da Censura não se
fez) ainda está inédito? Posso publicá-lo na Távola?
Escrevo a correr.
A vida aqui está terrivelmente desmoralizante.
Diga-me se recebeu o Livro Sexto e o número de Novembro da Távola, 1º número
dirigido por nós. Em breve lhe escreverei a contar da GOMES e mais coisas:
entrei para a delegação!
Mil saudades da muito amiga
Sophia
O Nikias Skapinakis está preso há um mês.”
Adenda (mensagem recebida)
Adenda (mensagem recebida)
"Rica peça, melhor só o Eça"...,
tenho então, meu caro, tenho então que lhe provar que o Eça suplanta o Sena. Aí tem
um naco de prosa do Eça, amanhe-se e depois não se precipite mais. Fale só
quando tiver a certeza. Homessa! Era só o que me faltava, ter que me
justificar, alguma vez se viu!
“Nós estamos num estado comparável, correlativo à
Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos
caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de
espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros
estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela
sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a
Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a
honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu
humano da beleza da arte.”
Eça de Queiroz, in "Farpas" (1872)

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