Sono qui adesso e andiamo a casa

Pois está errado, meu caro, não é para levar a sério essa sua ideia de que uma decisão é um produto da razão, dum raciocínio..., é uma ideia errada a sua, bem eu sei que é... Olhei e vi, cabelo apanhado e casaco fino de golas levantadas, uma fada elegante a olhar o horizonte de água e com uma chávena nas mãos conchas (aquecia as mãos ou aquecia a chávena?!), e perguntei-lhe: mas, então, uma acção não é a consequência das percepções? Obviamente que não, respondeu; sim, durante muito tempo, martelou as palavras, assim se pensou (e ainda pensa), só que assim não é. Ora oiça (passe os olhos por este resumo) o que me disse o Alain Berthoz: "Há umas dezenas de anos as descobertas científicas mostram até que ponto partes do cérebro (como o córtex pré-frontal, que elabora as reflexões e outros aspectos do pensamento como as operações mentais sobre o espaço ou o cálculo) são influenciadas por zonas cerebrais (o sistema límbico) implicadas na emoção - por exemplo o medo de uma cobra - mas também na atribuição de valores. A tomada de decisão resulta de uma convergência de acções das zonas do córtex pré-frontal que elabora os argumentos "razonáveis", e do sistema límbico das emoções... Até a um tempo recente, as relações entre razão e emoção eram muito subestimadas e a verdade é que o sistema límbico está ancorado no corpo, na acção (...) e hoje considera-se que o cérebro que elabora as percepções sobre o mundo funciona a partir da acção que deseja concretizar..." Se assim é, interrompi, o cérebro utiliza dois mecanismos para decidir, a memória das experiências passadas e a antecipação do futuro, e parece não ser necessário um sistema central específico... Oh, oh, oh, meu caro, cantarolou, os calores desta minha chávena (adoro um abanatado em chávena-loiça) são gelo, comparados com o calor que sinto por dentro, então não é que entendeu perfeitamente bem que uma decisão decorre de uma tensão entre aqueles dois mecanismos (melhor será dizer aqueles duas funções), ou seja, uma decisão acontece se tivermos em conta as consequências das acções passadas e a predição das acções futuras: é a acção, e não a razão, que é o verdadeiro motor da tomada de decisão, e é a decisão que justifica o cérebro... Daí que?! Provoquei. Daí que, meu caro, sussurrou, se as decisões se tomam em diálogo interno entre dois (o si e o seu duplo), e se o seu duplo sou eu, assim linda, sábia e elegante, o princípio é o acto e não o verbo... "Sono qui adesso e andiamo a casa", concluiu ela, rodopiando feliz.

Adenda (mensagem recebida): leituras fora de horas
Li com atenção, meu caro, o fragmento do livro de Alain Berthoz; gosto da palavra fragmento! Que "casa" com parcela ou parte (Ai a Reverie a tomar conta do pensamento!). Retomando... Detive-me no "Epílogo", por ser a conclusão do livro que não me foi dado ler para além do fragmento, e agradou-me a construção da ideia de que a acção suporta a emoção e a reflexão, logo a decisão! Claro que divaguei pela anatomia do cérebros reptiliano, mamífero e neo-córtex, que o confirmam, de resto! E perdi-me nas divagações do Ramachandran a expor e a explicar os neurónios espelho do Rizzollati e pensei: "os neurónios espelhos (chamados neurónios de empatia) simulam mentalmente a acção observada, e percebi que quando falamos de empatia, ela sugere perceber a emoção dos outros e pormo-nos na sua pele, e o que pode parecer deter-se na emoção é na realidade determo-nos na acção do outro que vem mediada na emoção e reflexão e também expressa na acção, certo?".
Vá lá, meu caro, respire fundo que isto é capaz de ser longo..., coma uma uva. 
Então repare: "o bebé estabelece com a mãe (ou com alguém por ela que o cuida) uma vinculação (aceitemos que emocional) porque dela emanam todas as acções-resposta necessárias á vida do bebé e traz um programa acção/emoção para o solicitar: chora, sorri, esperneia, palra; vai tendo, com estas acções, a resposta adequada (ou não mas deixemos o não em suspenso), e assim vai construindo ou reforçando o mapa de acção/emoção que resulta para obter a acção pensada pelo adulto, e escora aqui o seu desenho do mundo..., ou seja, desenha o seu mundo a partir da tradução responsiva da mãe....;  e, na sua ausência, até transporta com ele, a âncora dos objectos transitivos do Winnicott (do Winni não, dele bebé sim) a memória concreta dos mapas de acesso ao mundo".
Continuando... É na resposta-acção da mãe que se vai construindo o seu mapa de respostas próprias, primeiro ensaiadas no cérebro como acção-emoção-vinculação e depois reproduzidas, testadas, emuladas como acção-reflexão... Ei, ei, meu caro, eu sei que agora o salto foi grande, mas escusava de ter comido as uvas todas de empreitada, mas repare... O bebé chora, pegam-lhe ao colo e embalam e ele memoriza acção-emoção e acção-resposta..., repete, funciona, aprende e a dada altura utiliza com intencionalidade, será que decide, que define estratégias?... No entretanto, já  tem 2/3 anos e  até aprendeu a representar os mapas do mundo em jogo simbólico com os outros meninos...; neste brincar participa aos outros pela acção e pela linguagem os seus mapas, e descobre desenhos comuns ou divergentes e ensaia tomadas de decisão, melhor ou pior sucedidas neste jogo de com-sentimentos e decisões reflectidas, nem que seja: "assim não quero brincar mais"... Descobre história, socialização, linguagem, elabora mais complexidade mental, reformula mapas em conjunto (distintos mas coincidentes, ai o Vygotski!) para reformular a sua identidade...
Até que o Alain Berthoz faz sentido, verdade?!!!... Para a próximo trago bananas, pode ser que o cacho dê para os nós os dois...

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