O jogo das leis: na natureza e na vida

Iniciemos com uma afirmação paradoxal e de carácter provocatório: se a história é do tempo que passa, a física não gosta do tempo que passa.

Quando a física se aplica a processos que por definição têm uma evolução, tem como objectivo encontrar os princípios e as regras que são independentes do tempo. E preferindo a legislação das metamorfoses ao formalismo do intemporal, liga o que muda ao que é permanente, graças às leis que se libertam de toda a temporalidade. Se assim não fosse, como organizar uma teoria a partir de conceitos flutuantes? Que poderia dizer-se do movimento se o conceito de movimento fosse um conceito sujeito a alteração? Na prática, e através de uma "formulação económica", dir-se-ia que a ciência física supõe que aquilo que varia ao longo do tempo não é a lei, mas as constantes universais.

Mas será que a afirmação inicial é tão verdadeira? O jogo intelectual não tendo a priori limites, deixa-nos margem para transportar estas questões da física para a história e para o campo social. Recordemos, a propósito, um escritor esquecido que, num romance surrealista escrito durante a Segunda Guerra Mundial, descreve uma cidade em que as leis e as regras, cada dia mudavam sem conhecimento dos seus habitantes. Nada se mantinha, a não ser o princípio de uma permanente mudança dos códigos: era permitido roubar num dia e não noutro, mas ninguém conhecia as leis em vigor em cada momento, com excepção daqueles cuja função era castigar os infractores. Era como se cada manhã, um demiurgo decidisse o que era lícito e o que não era, editando leis efémeras, desconhecidas daqueles aos quais elas se aplicavam: todos os dias renovadas, estas criavam na cidade um ambiente que correspondia a um jogo de suplício permanente, mistura de lotaria e de violência, impedindo por essa razão que se fixassem as noções de bem e de mal.

As conclusões que se podem tirar são duas.
A primeira é aquela que nos diz que sempre que os laços entre as leis e a sua permanência se destroem, desaparecem todas as referências: a justiça, as relações humanas e até o sentido da vida deixam de ter um ponto de apoio.
A segunda remete-nos para a segurança que a ciência nos pode garantir: ela não sabe pensar o tempo senão imaginando que ele contém alguma invariância e por isso não gosta do tempo que passa.

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