O que é ouvir um som como música?
Honestamente, verdade de gota serena, não sei mesmo bem porquê, mas quando li nos "Sonetos a Orfeu" de Rainer Maria Rilke "As palavras ainda correm suaves para o indizível/E a música, sempre nova, de palpitantes pedras/Constrói em espaço inútil a sua casa divina.", duas perguntas ladinas se fizeram anunciar: o que é a música?, e porque é que ela tem a sua casa num espaço inútil? A resposta aconteceu-me de imediato: a música é, e a música mora no som. Pois sim, até que estou de acordo, soprou-me a minha consciência crítica, mas ninguém sabe o que é o som. Como é que é?, irritei-me. Ouve, trauteou ela de mansinho, pensa comigo, o som não é propriedade dos objetos que o emitem, o som não é inerente aos objetos como as cores e as formas o são. Os sons ocorrem, é isso? Atrevi-me. Isso!, nem mais, ocorrem, respondeu de afogadilho e risonha, os sons não são coisas e não são propriedades das coisas, os sons são acontecimentos, são acontecimentos muito peculiares, conseguimos ouvi-los sem conhecimento das suas causas, são acontecimentos puros cheios de aroma de infinito, imagina um violino e uma flauta a soar em uníssono, que te parece: há um som ou há dois sons? Sentindo-me pensativo, continuou quase terna: diz-me que só tens um conceito vago de um som "individual". Banzado, disse que sim, um conceito vago com beleza e força inexplicável que assinala cruelmente os limites do meu entendimento, e perguntei: daí se conclui o quê? E ela, delicada com é seu timbre, sugeriu com voz alumiada: ouve agora os primeiros compassos da Quinta Sinfonia de Beethoven, logo de seguida vai tomar um café e regressa uns minutos depois, aprenderás que é natural distinguir o som da experiência de o ouvir. Atarantado, ainda perguntei estalando os dedos com nervoso miudinho: quando é que o som se torna música? Ups!, ripostou num sussurro doce, a pergunta está mal engendrada, formula-a assim: o que é ouvir um som como música?, ouvidos como música os sons são assustadores nos seus mistérios. Embasbaquei de vez, descobri-me ínfimo e meti a viola no saco, a minha consciência é um prodígio com pontinhos de génia, sorte a minha!

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