São contas-palavras, migalhas de mim
Tens dúvidas? Pois não tenhas. A minha ânsia mede-se em palavras. Sim,
é contigo que falo, que me abro, que deixo entrever os bons e maus momentos, que te
mando em código sentimentos e poesias e abjurações e tristezas e alegrias e sonhos lúcidos. Para ti, sim, para ti, componho frases onde tudo está e tudo se esconde: a aparência
mascarada de realidade, o acontecido embrulhado em fantasia, o meu eu. O meu eu, tantas
vezes multiplicado, e de que, por vezes, nem eu reconheço a própria sombra. Falo-te, e parece
que não existo, nem sequer como me imaginas, porque em cada momento me refaço.
Escondo e escondo-me, reapareço, invento-me. Falo-te com palavras, e elas, vivas, fazendo ricochete, transtornam a imagem que de mim formas, a do espelho em que
julgas ver-me e onde estou de facto. Falo, tu escutas, tu és sábia e perspicaz e linda. Parece
realidade (e é) mas também é aparência e distância e sonho e a bela ilusão do
possível e o poder volátil do desejo tonto e a vontade de que haja outro novo acontecer muito em breve. Não sabes, mas eu enfio as palavras como contas num rosário de Fátima, com credo e com sentido. As minhas palavras, acredita, são a justa medida de um pecúlio firme de ideias amealhadas pela sinceridade. São contas-palavras, migalhas de mim, sacudidas com fingido descaso, mas na esperança
de que, se as apanhares, te digam que estivemos a falar e que nos compreendemos
e que, muito em breve, nos vamos ver e encontrar. São contas-palavras, migalhas de mim, mortinhas por te tocar de mansinho e por te afagar suavemente, à espera que a tua pele me fale sem palavras. E, depois (só depois), chegarão as tuas mãos doceiras, ledas e leves, um triz de música e o prodígio da tua personalidade sensual a preencher o ambiente de sensações vivíssimas... Tens ainda dúvidas? Pois não tenhas.

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