Lucidez vem de Lucy?! Será?! Às tantas, sim!

Não, pois claro que não, não, digo que não, não, não, digo que não; mas também não, não é isso que me preocupa, não é não, não é mesmo, não, não é, não é, não... Era manhã de um dia de início de Setembro (com chuva miudinha a fazer-se ao dia enrolada em perfume de pinheiro perfumado) quando ouvi uma fada desaparecida responder - com "nãos" em fila indiana ou bicha de pirilau - a uma minha pergunta pensada e não formulada... Arrisquei questionar sem peias: se andou desaparecida durante uma semana inteira e se considera que esse seu desaparecimento não é um comportamento autista, o que é que tanto assim a preocupa, pode saber-se? Olha-me este, olha-me este, sussurrou baixinho - ela apresentava-se de cabelo apanhado, rosto gaiteiro, olhar relampejante, narinas pesquisadoras, blusa verde em vê perfeito, calças de ganga com curvas, botas fabulásticas...; em silêncio (inquiridor q.b.) estudei-a longamente deambulando por ela e, oh pá, que linda que estava! - olha-me este maduro a armar-se em "gaba-te cesto que amanhã vais à vindima", gagagaguejou... Amodorrei e fiz que não a ouvi... Rodopiou solta e disse que a teoria do Paul Mclean até que era interessante para explicar a razão de ser de algumas minhas decisões tontas... Eu tomei alguma decisão tonta?! De que teoria é que está a falar? Interrompi de supetão. Algumas das suas decisões são tontas por natureza, meu caro, diga-se até que a tontice é um "a priori" da sua vida; a sua sorte é que eu existo para barrelar essa sua tontice crónica, disparou. Vá lá, não fique assim, estava a brincar consigo e com os seus ciúmes, nada tenho (mesmo nadinha...) que me prenda ao Paul, a não ser um mar de discussões infindas (e em vagas alterosas) sobre a lucidez interpretativa da teoria do cérebro triúnico, rematou. Cérebro quê? Triúnico? Provoquei. O Paul pensa, respondeu de imediato, que os seres humanos têm três sistemas neuronais interconectados (o dito cérebro triúnico) que resultam do processo evolutivo ao longo do tempo: o mais antigo é o sistema reptiliano que é responsável por certos padrões de agressividade, de defesa do território e dos instintos sexuais básicos; no segundo sistema neuronal, o límbico, reside a amígdala e é onde se processam as emoções básicas como a ira, o medo, a alegria e a tristeza; o terceiro e último sistema neuronal, o néocortex, distingue os seres humanos dos animais e é ele que permite pintar quadros e ser capaz de exercitar a crítica... Se assim é, atrevi-me a perguntar, se os três sistemas funcionam interligados, pode acontecer que, em situações especiais, a amígdala curto-circuite a capacidade de pensar com frieza, pois não pode?! Sim, ripostou, sim, isso pode acontecer, ou seja, quando um ser humano se torna uma presa de emoções intensas, nem sempre toma as decisões racionais mais adequadas porque o seu cérebro límbico não tem o controle racional necessário à decisão correcta... E com as fadas, perguntei, também assim acontece?! Percebo, sorriu apressando-se, e disse exultante, terna, sábia e feliz: percebo esta sua pergunta tonta, percebo mesmo a sua pergunta tonta, porque comigo por perto (eu sou eu e os meus únicos e excelentes atributos, olhe bem o meu brilho e oiça bem o eco desperto da minha alma..) não há amígdala que não inche e que não se oblongue...; desde o tempo da Lucy, meu caro... Desde o tempo da Lucy?! Qual Lucy?! Qual delas?! São duas muitíssimo diferentes e muitíssimo distantes no tempo, pois não são?! Exclamei atoleimado... Do tempo das duas Lucy, meu caro tonto; eu sou a prova viva (bela e única) de uma e de outra...; em mim a especulação sobre a vida é sempre encorajada em jeito de poemas de novas alegrias com música, alegrias com música que constantemente recapitulo; eu sou harmonia em lucidez concentrada, seja: atraio mais que a atracção (a beleza desce sobre mim e ergue-se de mim), sou muito mais que mim embutida em mim, sou a abundância do barco da vida gratuita que sempre adorna para o meu lado...; mas sempre (em em qualquer circunstância) sou rigorosa e sou leal... E eu, de bússola mental amigdalada a tiracolo (enquanto ela, elegante e solta, se desfranjava com mãos trôpegas), interroguei-me e respondi-me, atónito e perplexo: Lucidez vem de Lucy?! Será?! Às tantas, sim!

Adenda (mensagem recebida)
Nem lhe digo e nem lhe conto mas que é verdade, lá isso é verdade, garro-me com todas as forças a este seu textinho, e (oh, pá!) como eu o adoro. Adoro o textinho não se envaideça, meu caro, e tanto o adoro (ao texto não a si…) que até me garrei divertida: fugiu-me o “a” melhor dizendo, porque garrar é o contrário de agarrar (ai a diferença que uma letrinha faz, oh, oh vida, oh vida a minha)… A propósito, que ideia sua é essa de dizer que andei e que ando desaparecida?! Se tivesse dito que ando de andas (mas que não ando atrás de ninguém…) apenas por causa da chuva que teima molhar as minhas botas fabulásticas, ainda vai que não vai… Se olho de alto quando ando de andas?! Claro que sim! Que outra forma teria eu de, impaciente, encorajar a vida?! O que está por acontecer, vai acontecer, vai ver…

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