Claro que tenho razão para estar "fuliz"!

Fiquei sem fala, meu caro, fiquei mesmo; não diga nada, deixe que eu conte tudo de seguida, digo mais, digo até que me estou a sentir “fuliz”… Tenha paciência, sente-se “fuliz”? Que tipo de sentimento é esse? Interrompi o palavreado solto da única fada que, quando perde as estribeiras, deixa que as virtudes da dislexia se assomem nas palavras. Esta sua interrupção (atabalhoada diga-se em abono da verdade) até que tem alguma razão de ser, continuou, até que uma razão de ser porque condensei em “fuliz” dois sentimentos: “estar fula e estar feliz”… Curioso quanto baste, tentei saber o porquê… Creio que ela adivinhou os meus pensamentos quando disse sem rodeios: sei bem que quer saber o porquê do meu sentimento “fuliz”, mas vamos por partes; a percepção visual (a sensibilidade estética) foi o primeiro passo evolutivo (logo a separação do ser humano dos primatas) no desenvolvimento de novas formas cognitivas, mas também sei que alguns humanos, por vezes, ainda se exprimem com resquícios de primatas... Não se importa de ser mais explícita, pedi. Tudo bem, ripostou de ar zangado, leia então uma poesia que um meu admirador me enviou em jeito de poesia medieval:

Muitos vej´eu com mêngua sem
e tôdolos me vêem preguntar
qual est a dona queu quero bem.

Eu bem falo de sa fremosura
e nem cuidem m´enganar
pra qaajam dela cura.

De mia dona não saberam rem
ca eu e per mim a quero amar
e ai assi eu me venha bem.

Percebe agora porque é que estou fula e estou feliz ao mesmo tempo, por que é que me sinto “fuliz”? Não, claro que não, respondi. Estou feliz, ciciou, porque sinto (muito justamente) a minha estonteante beleza desvelada e admirada por um ser humano cujo cérebro já desenvolveu a sede da capacidade estética; e estou fula porque o último verso da poesia ainda mostra resquícios de um primata falante, pois não mostra? Pois parece, pelo seu ponto de vista pois parece, não pude deixar de dizer...; e, na tentativa de a acalmar, desviei a conversa, perguntando se a capacidade estética de um ser humano se confunde com o facto de no córtex cerebral existir uma sensibilidade para a estética e para a capacidade de reconhecer a arte... Ajeitou a franja rebelde (o seu ar "fuliz" ainda se mantinha vivo num sorriso sorrateiro), e disse que sim, mais ou menos, talvez, mas que se recordava de ter discutido esse assunto com um seu amigo (há tempo que não falo com o Camilo Cela Conde, suspirou)... E?! Sou todo ouvidos, provoquei. E, suspirou de novo agora com ar afogueado, saiba que o Camilo me garantiu que a capacidade de apreciar a beleza visual na natureza e a arte (a sensibilidade estética) é puramente humana e que todos os primatas carecem dela... Vá, diga se tiver coragem, invectivou-me, diga se eu que sou a expressão mais conseguida de natureza spinoziana e arte iluminada, tenho ou não razão para estar "fuliz" depois de ler e de me derreter (assumo que também...) com aquela poesia? Claro que tenho razão para estar "fuliz"!

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