As circunstâncias de um livro que nasceu na Casa Pia de Lisboa
Um
notável filho de Lisboa: José Anastácio da Cunha
Dotado
de muitas curiosidades e numerosos talentos, morreu a 1 de Janeiro de 1787, com
menos de 43 anos, confortado com os sacramentos, vítima de estrangúria, ou
segundo outros, atrabílis. Acabou pobre de bens materiais tal como nascera.
Filho de um pintor-decorador de talento, mas de condição “servil”, e de sua
mulher, criada desde criança em casa de um Tesoureiro-Mor do Reino, veio ao
mundo a 11 de Maio de 1744. Aluno dos Oratorianos na Casa de Nossa Senhora das
Necessidades José Anastácio da Cunha seguiria, além dos estudos clássicos, os
das línguas modernas e das ciências. Declarou à Inquisição ter aprendido Física
e Matemática sem mestre. Tratar-se-ia de estudos adiantados. O Oratório cá não
seria tão liberal como o francês, mas as obras de alguns dos seus mestres mais
célebres (Manuel Bernardes, Teodoro de Almeida) ou dos seus alunos mais
conhecidos (José Anastácio da Cunha, Alexandre Herculano) mostram o espírito
que soprava na Instituição de são Filipe de Néri.
Talvez
por motivos de família, pois havia paz com a Espanha, finda a Guerra dos Sete
Anos (7 de Março de 1763), assentou praça relutantemente no Regimento de Artilharia
do Porto, aos 19 anos. Pela sua instrução cedo foi promovido a Tenente de
“Bombeiros”, isto é, Bombardeiros ou Artilheiros, que tinha quartel em Valença
do Minho. Achando antiquadas as ideias sobre balística ali seguidas, escreveu
uma carta Físico-Matemática a pedido do capitão de mineiros do seu regimento.
Foi por isso punido pelo marechal alemão recomendado do Governo Inglês, o Conde
de Schaumburgo-Lippe, vencedor da guerra com Espanha, em 1762, e reorganizador
do exército português até 1764. Neste mesmo ano, antes de voltar à Alemanha, o
dito conde reinante passou por Almeida, onde se encontrava então José Anastácio
e onde “inocentemente” lhe ofereceram a tal dissertação. Apesar de tudo o
marechal, homem cultíssimo e justo, recomendou que promovessem o inovador e lhe
dobrassem o soldo. Quando o Marquês de Pombal mandou o jovem militar para lente
da Universidade (9 de Outubro de 1773). Com a reforma da Universidade,
constituíra-se a Faculdade de Matemática. José Anastácio foi nomeado pelo
Marquês para a cadeira de Geometria, que o próprio Pombal apreciava (baseava o
governo “princípios geométricos e, como tais, sólidos e infalíveis”). Foi-lhe
conferido então o grau de doutor como a outros lentes nas mesmas
circunstâncias.
Com
a morte de el-rei D. José (24/2/1777) caiu o Marquês. José Anastácio não era
simpático aos seus colegas coimbrões. Por motivos talvez de economia, mas quicá
também de soberba, pedira e obtivera permissão régia para usar o uniforme de
oficial de artilharia nas aulas, o que parecia aos outros doutores falta de
dignidade escolástica. Não tinha hábitos de sociedade, era brusco e pouco
condescendente, relacionava-se com mulheres de várias classes sociais, ria
nervosamente, o que os demais lentes tinham por mofa, e dizia mal dos professores e da sua praxe. E, ainda pior, fazia sombra à ciência e ao talento dos
colegas. Denunciado à Inquisição de Coimbra, foi preso no dia 1 de Julho de
1778. (…) Pombal enfraquecera a Inquisição. Os réus foram condenados a irem com
hábitos penitenciais “ao auto público de fé” e este celebrou-se em 11 de
Outubro de 1778, na sala do Palácio da Inquisição (no Rossio, onde depois se
ergueu o teatro Nacional). Os parcos bens foram-lhes confiscados. Quanto ao
ex-lente de Coimbra, a reclusão de três anos seria, como rogara, na casa da
Congregação de Nossa Senhora da Necessidades, onde fora educado. Não cumpriu o
degredo de quatro anos para Évora. A seu pedido, comutaram-lhe, a 23 de Janeiro
de 1781, esta pena em continuação de residência na casa das Necessidades.
Diogo
Inácio de Pina Manique fora nomeado Intendente da Polícia da Corte e do reino
em 18/1/1780. A 20 de Maio recebeu autorização a Casa Pia no Castelo de São
Jorge. Entre os vários colégios que fundou, dentro da instituição, estava o de
São Lucas que alguns chamam Academia, talvez por influência da célebre escola
de Roma. Segundo F. A. de Oliveira Martins, lá ensinavam Línguas Estrangeiras,
Ciências, Navegação, Engenharia, Artilharia e várias Artes. Desde 1781 até à
morte, José Anastácio da Cunha foi seu director e professor de Matemática. (…)
José
Pedro Machado, Factos, Pessoas e Livros

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