A recuperação do Sensível é a Redescoberta da Terra
“No Outono de 1985, um
forte furacão caiu sobre os subúrbios de Long Island, onde eu vivi quando
andava a estudar. Durante vários dias depois disso, grande parte da população
ficou sem electricidade; as linhas de electricidade tinham caído, as linhas
telefónicas estavam interrompidas, e as estradas pejadas de árvores derrubadas.
As pessoas tinham de ir a pé para o trabalho e para as lojas que calhava ainda
estarem abertas. Começamos a encontrar-nos nas ruas, “em pessoa” em vez de pelo
telefone. Na ausência dos automóveis e dos seus motores barulhentos, os ritmos
dos grilos e o canto das aves tornaram-se claramente audíveis. Bandos de
pássaros estavam a migrar para o Sul para passarem o Inverno, e muitos de nós
deram por si a escutar, simplesmente, com nova e infantil curiosidade, as ondas
dos cantos nas árvores ainda em pé e nos campos. E à noite, o céu estava
cravejado de estrelas! Muitas crianças, cujos olhos já não estavam ofuscados
pelo brilho das luzes domésticas e dos candeeiros da rua, viram a Via Láctea
pela primeira vez, e ficaram espantadas. Durante esses poucos dias e noites, a
nossa cidade transformou-se numa comunidade consciente do seu lugar no cosmos
envolvente. Até os nossos narizes pareciam estar acordados, e os frescos aromas
do oceano mais vibrantes e salgados. O colapso das nossas tecnologias tinha
forçado um regresso aos nossos sentidos e, consequentemente, à paisagem natural
em que esses sentidos estão profundamente mergulhados. Subitamente, demos por
nós a habitar um mundo cheio de sensações que tinha estado à espera, havia
anos, mesmo na orla da nossa consciência, um terreno íntimo impregnado de
cantos das aves, espirros salgados e luz das estrelas.”
David Abram, A Magia do
Sensível, pp. 63 e 64

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