Eugénio Lisboa escreveu ao actual primeiro ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho. Assim:
Exmo.
Senhor Primeiro Ministro
Hesitei muito em
dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de
indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais,
não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me
inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos
nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E,
então, não há que fugir-lhe.
Para ser
inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa.
qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo,
traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral,
não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a
minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa
que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será
sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo”
ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê
como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que
falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
Mas tenho, como
disse, 82 anos, e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice –
da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito –
a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a
derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que
vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos
no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de
um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A
velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que
servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e
definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
A velhice, Senhor
Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as
morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o
departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova
Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada
sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter
défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado
The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a
primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para
nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi
nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não
interessamos, que, até, incomodamos.
Todo o discurso
político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma
direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma
velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de
nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados
(seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de
sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta
que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos,
sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a faltadela. Sempre, no
entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez
nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo.
Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é
retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente
firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e
contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo
favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de
disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde,
actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel
embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos
fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a
brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que
enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o
que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais,
passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
Já alguém,
aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à
velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor
ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos ,
situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º
andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa.
e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste
gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As
políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças - sim,
porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm
levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente
humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História
não confina a míseras notas de pé de página.
Falei da velhice
porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento
devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo
país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem
emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos
os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um
dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não
acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu
governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto,
estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês,
Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher
(uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e
conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a
memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a
ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como
o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo
e extremismo. Claro que não dá.
Alguém observava
que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível
que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus
constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que
lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e
com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar.
Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a
iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população
portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir
mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais
invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
De V. Exa.,
atentamente,
Eugénio Lisboa
Ex-Director da Total, em Moçambique
Ex-Director da SONAP MOC
Ex-Administrador da SONAPMOC e da SONAREP
Ex-Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em
Londres
Prof. Catedrático Especial de Estudos Portugueses (Univ.
Nottingham)
Ex-Presidente da Comissão Nacional da UNESCO
Prof. Catedrático Visitante da Univ. de Aveiro
Doutor Honoris Causa pela Univ. de Nottingham
Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro
Medalha de Mérito Cultural (Câmara de Cascais)

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