O QUE SERÁ FEITO DO GASPAR?

Ainda hoje, e passado tanto tempo depois que estes acontecimento tiveram lugar, muitas vezes pergunto a mim próprio como é que me meti nesta história.
Por mais que tente apagar da memória as aventuras e desventuras do meu amigo Gaspar, tornou-se completamente impossível dissociar a imagem dele destes acontecimentos.
Gaspar era um miúdo parecido com muitos outros, aparentemente com características comuns a muitos dos miúdos lá da rua. Moreno, cabelo farto e grosso, muitas vezes com a fralda da camisa de fora como se tivesse acabado de se assoar a ela, e os bolsos sempre atafulhados de berlindes. Com um temperamento afável, tinha contudo, o hábito de coçar o nariz com as costas da mão direita quando "enfiava o barrete" aos amigos.
Conheci-o ainda pequenino quando a mãe dele apareceu no nosso bairro com o miúdo pela mão. Ao que parece, tinha "fugido" do marido e tinha ido morar com uma prima que vivia perto de nós. Parca nas palavras, graciosa no sorrir e tímida no convívio; se pudesse ficar em casa, ficava. Costumava dizer que fazia questão de não andar na rua a "badalar" com as vizinhas".
Gaspar, ali foi crescendo entre as brincadeiras com os outros miúdos, entalados entre um corredor de casas pequenas e acanhadas e os olhares vigilantes de todos os vizinhos.
Anos depois soube-se que o pai tinha apresentado queixa no tribunal, porque nunca mais tinha "posto a vista em cima do cachopo". E assim foram os pais perante o juiz onde acabaram por "lavar roupa suja" como é habitual nestes casos. A criança nunca foi achada nem chamada naquela "lavagem". O meritíssimo acabou por se decidir a favor da mãe mas com algumas regalias para o pai. Ficou assente, entre outras coisas, que o miúdo dali em diante, passaria as férias grandes com o pai.
Se bem se combinou, melhor se fez. Nas férias grandes lá foi o Gaspar para casa do pai que residia nos subúrbios de Lisboa. Passou um ano, passaram dois e, aparentemente tudo ia andando e girando muito bem, até que, o "puto" que deixou de o ser, se meteu em problemas.
Já ele tinha quinze anos. Um dia, a mãe veio ter comigo e, perguntava-me ela se eu não me importava de ir a tribunal como testemunha abonatória, porque... o Gaspar estava preso! Mas é claro que eu iria a tribunal dar o meu melhor testemunho dele, conhecia-o bem, sabia quem era aquele miúdo, era um "filho" da terra - respondi-lhe eu.
No dia marcado, lá estava eu em pleno tribunal em frente dos magistrados, dos vários advogados de acusação e de defesa e de uma grande multidão curiosa em saber porque estavam ali três marmanjos para serem julgados.
De férias em Lisboa em casa do pai, o nosso amigo Gaspar, depressa fez amizade com outros miúdos. Um dia de verão, daqueles em que metade de Lisboa se mete no carro e vai para a Costa da Caparica tomar banho, Gaspar e outros dois amigos foram passear perto da Estação do Cais do Sodré... ali perto viram um taxista a falar ao telemóvel sentado ao volante do seu táxi e com a porta aberta; entraram no táxi, arrastaram o taxista para o chão, roubaram-lhe o telemóvel, e fugiram na viatura.
Tiveram azar... Ali perto andava um polícia à paisana que imediatamente ligou a todas as unidades na redondeza. Acabaram por ser interceptados bem perto de Santa Apolónia, tendo sido presos nessa mesma tarde.
O juiz perguntou-me o que é que eu sabia sobre o rapaz... Tentei defendê-lo da melhor forma possível; não me passava pela cabeça que aquele garoto que eu conhecia da minha rua, era agora considerado um marginal; não conseguia sequer imaginar o puto Gaspar a simular ter uma arma apontada à cabeça do taxista... gostava dele demais e recusava-me a pensar que tudo aquilo era verdade.
Dias depois ficámos todos muito satisfeitos lá no bairro porque nos chegou a notícia de que o Gaspar tinha sido libertado, atendendo aos testemunhos credíveis dos vizinhos que em tribunal tinham dado boa nota do miúdo.
Mas, por mais estranho que pareça, a vida encarrega-se de nos colocar em situações que, normalmente, nunca conseguimos perceber nem explicar...
Um ano depois, Gaspar foi preso de novo e, espante-se, acusado por uma situação muito semelhante. O que teria acontecido, nunca mais o soubemos. A mãe desapareceu do bairro, e do Gaspar, nunca mais lhe vimos a sombra.
Muitas vezes tenho perguntado a mim próprio se teria feito bem em ir a tribunal defendê-lo; muitas vezes perguntei a mim próprio que teria eu ido lá fazer? A única maneira de apaziguar o meu velho raciocínio de que "se fizeres a coisa errada, acabas mal na vida" é pensar que, acima de tudo, é importante "nunca prejudicar".
O que será feito do Gaspar?

António Monteiro
Maio 2012

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