A instrução popular secular e o ensino profissional em Portugal

Texto retirado (sem sublinhados) do

Boletim Segunda Classe
ACADEMIA DAS SCIENClÁS DE LISBOA
Sessão de II de novembro de 1915

(…)
O sr. Pedro de Azevedo fez uma interessante comuni-
cação: Disse que não se pôde negar, falando objectiva-
mente, que a instrução popular em Portugal tem raízes
antigas, a qual em importância não é para pôr em plano
inferior à que hoje se derrama entre nós. Só num ponto
há hoje u ih progresso essencial sobre os tempos antigos
em que se não pensava na instrução de adultos, como
agora se pensa e em parte se realiza.

Não pertence a uma academia de sciências tratar de
métodos de ensino e de assuntos filantrópicos, e muito
menos de procurar espalhar a instrução, o que pertence
a outros organismos do Estado. O que à Academia com-
pete é investigar sem descanso no campo do espírito e da
natureza, o que é uma obra revolucionária no mais
amplo sentido. É certo que pobres espíritos, a quem
outr'ora o nascimento e hoje as casualidades da vida
social põem em lugares de responsabilidade, não com-
preendem isto e procuram tutelar esses estabelecimentos,
como se fossem associações de sacristia, diminuindo-lhes
os recursos. 

Passa já de um século que a Academia das Sciências
recebeu o monopólio da direcção do almanaque de Lisboa,
publicação excedida hoje certamente pelas congéneres
particulares, mas que naquele tempo representava um
progresso considerável.

No almanaque para 1792, a pág. 506, acha-se uma
notícia muito completa de um estabelecimento ainda hoje
existente, mas com intuitos um pouco diversos da antiga
instituição. É a Casa Pia de Lisboa, criação «que se
deve ao fervoroso zelo e Patriotismo do Intendente Geral
da Policia, que conseguiu de S. Magestade esta funda-
ção», diz-se a pág. 322 do almanaque de 1793.

Pina Manique é um marquês de Pombal em miniatura.
Sobre ambos recaíram as imprecações e os doestos de
certas classes do impressionável e exaltado povo portu-
guês e a ambos tem a posteridade de reconhecer a exce-
lência da sua administração. Pombal era aristocrata e criou
o Colégio dos Nobres, donde depois surgiu a Escola Poli-
técnica ; Manique que foi contemporâneo da Revolução
Francesa, fundou entre nós definitivamente a instrução
popular secular e o ensino profissional.

Em 1792 estava a Casa Pia instalada no castelo de
S. Jorge e dividia-se em sete repartições.

A primeira tratava de homens válidos e rapazes entre-
gues à mendicidade, a quem se ensinava a fabricar teci-
dos de linho, brim, algodão, meias de seda, lonas e
cordoaria. Havia 149 teares de vária espécie e neles se
empregavam 340 pessoas.

Na segunda repartição ensinavam-se 259 rapazes a
lêr, escrever e contar.

Na terceira 24 meninos de tenra idade eram dirigidos
e ensinados por um mestre de língua alemã, que foi
mandado vir para este único fim. E notável esta missão
que prova que eram já conhecidos em Portugal os pro-
gressos da pedagogia alemã.

Na quarta repartição estavam 55 orlas.

Na quinta havia 185 estudantes e dois professores
pára lhos ensinar gramática latina e francesa e ainda
outro pára ensino de inglês. Mais havia nela aulas de
anatomia, desenho de figuras e arquitetura. Os estudan-
tes a quem se reconhecia capacidade iam estudar nas au-
las públicas filosofia, matemática, grego, comércio, etc.

Na sexta repartição havia 219 órfãs, que recebiam,
àlêni do ensino das primeiras letras, a aprendizagem de
coser, bordar de ouro, prata, matizes, flores, toucados,
modas para senhoras, tecer fitas e pano de linho.

A sétima era destinada para correcção de certas mu-
lheres, onde havia 218, que se ocupavam em fiar linho e
algodão.

A Casa Pia possuía três colégios. Um em Coimbra,
onde se achavam ao tempo 42 estudantes, que frequen-
tavam a Universidade para se íbrmarem na mesma Um>
versidade. É bom rocordar que Schiller foi compelido a
estudar cirurgia, em consequência de frequentar uma
escola instituída por um duque de Wurteniberg, na qual
se dispunha livremente das aptidões dos alunos.

O segundo colégio tinha a sede em Edimburgo e nele
se achavam sete estudantes, que frequentavam a Uni-
versidade da cidade e nela estudavam anatomia, cirur-
gia, medicina e partos. Dois destes continuaram a estu-
dar na Dinamarca.

O terceiro colégio era em Rorna e nele se achavam
10 alunos, que lá se aperfeiçoaram em pintura, escul-
tura, arquitetura e buril, «os quais tem sido premiados
por se terem distinguido pelos progressos, que eles tem
feito, o que faz honra à nossa Nação».

Foram estes últimos os alunos que mais se notabiliza-
ram o maior honra trouxeram ao estabelecimento criado
por Pina Manique.

E possível que doutros colégios da Casa saissem nota-
bilidades, mas por enquanto não são do domínio geral
os seus nomes.

Observa-se que não foram enviados para França alu-
nos da Casa, o que era medida de prudência, pois aquele
país encontrava- se então debatendo- se numa crise tre-
menda, que excluía o trabalho pacífico.

Vè-se. por esta interessante resenha, que não se
podia exigir mais de um estabelecimento naquele tempo ;
e que algumas das medidas ali postas em prática estão
hoje introduzidas em estabelecimentos próprios como
novidades.

A propósito desta comunicação, o sr. Lopes de Men-
donça Lembrou que já no século xvi Afonso de Albu-
querque f lára na índia escolas para crianças.

(…)
Breve nota de rodapé:
 - os mais curiosos encontrarão neste documento um ponto de apoio para descobrir ou para confirmar a importância da Casa Pia de Lisboa na História da Educação em Portugal; outros começarão a conhecer, por um prisma diferente, a história dessa secular Instituição; uns e outros perceberão  a urgente necessidade da reinstauração da autenticidade da Casa Pia de Lisboa nesta segunda década do século XXI.

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