O esqueleto necessário da forma
Dizia Cézanne (que todas as manhãs caminhava até ao cume de “Les Lauves” de onde tinha uma visão panorâmica sobre as planícies provençais) que desse cume e à sombra de uma tília, podia ver os padrões escondidos da terra e a disposição dos planos sobrepostos do rio e das vinhas.
E dizia ainda que lá, em fundo, estava sempre a montanha que recortava triângulos isósceles de pedra que ligavam a terra ao céu. Tal significa que o seu interesse passava apenas por pintar os elementos essenciais, por pintar o esqueleto necessário da forma.
E assim sendo, confirma-se que:
- o rio é uma sinuosidade azul;
- os soutos de castanheiros são salpicos de um verde apagado e subtis pinceladas ocre;
- a montanha é uma única linha de tinta diluída corrida através do céu vazio; e embora a montanha (um risco frágil contra um vazio em expansão) esteja quase invisível, permanece ali implacável e firme e é o assomo da sua gravidade que segura a pintura.
Esta pode ser uma das formas de demonstrar como a arte antecipa a ciência, ou seja:
Esta pode ser uma das formas de demonstrar como a arte antecipa a ciência, ou seja:
- a espantosa plasticidade da nossa mente tem a capacidade de inventar a forma que a pintura de Cézanne insinua; e quando assim acontece, não sabemos onde termina a pintura e começamos nós...Porque é no vazio (alargado pelo esqueleto da forma) que a invenção e a criatividade se deliciam numa cuidadosa confusão de coisas e de nada.
Quem foi que disse "admirável aplicação da neurociência"?
Quem foi que disse "admirável aplicação da neurociência"?

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