(Variações) a propósito do "Conceito" e dos "Objectivos Educativos" de uma "Quinta Pedagógica"

                                                    Creio que uma folha de erva não vale menos que a jornada das estrelas.

                                                                E a formiga é igualmente perfeita, e um grão de areia,

                                                                e o ovo da carriça.

                                                                                                         Walt Whitman


1. Existe (e ainda bem que existe, é um excelente projecto educativo), desde 2015, uma "Quinta Pedagógica" na cidade do Fundão, sendo a sua gestão da responsabilidade da Santa Casa da Misericórdia do Fundão. Sabendo da sua existência, preparamos  uma visita com duas crianças, entre os 6 e os 10 anos de idade, a essa quinta pedagógica, num dos dias de uma estadia de férias no território do "Geoparque Serra da Estrela". Assim:

 - (1) o mais bem que pudemos, explicamos o que é e para que serve uma "Quinta Pedagógica"; 

- (2) escolhemos calçado e roupa adequados à estação, com o objectivo de evitar que a logística comprometesse as descobertas; 

- (3) na viagem curta até â quinta, fomos falando de tudo o que podia servir de motivação e falamos de três regras simples: respeitar os painéis de informação, ter um comportamento calmo, e perguntar antes de entrar num espaço animal. As crianças percebem facilmente regras simples, não dar comida aos animais sem autorização, lavar as mãos depois das atividades em ateliês;

- (4) ainda antes da chegada, conseguimos falar da ligação da "Quinta Pedagógica" às estações do ano: na Primavera, para as sementeiras, para o significado da estufa, e para o aparecer de folhas nas árvores e plantas; no Verão, alertamos para o cuidado com o calor e a importância das sombras e falamos da fruta nas árvores e no chão; no Outono, falamos da importância e significado dos telheiros e dos celeiros; no Inverno, dissemos que a vida na quinta é mais calma e que a primazia é dada aos cuidados quotidianos e à reparação das infraestruturas. E sim, também na véspera tínhamos tido uma conversa demorada sobre as culturas arvenses e sobre as árvores (e frutas) e sobre os animais que vivem nas quintas, desde as formigas e os micróbios até às cabras e ovelhas e avestruzes e pássaros e cães e coelhos e cavalos e burros e rãs e sapos e moscas e formigas e moscas e moscardos e ficamos apreensivos por saber que poderia haver animais vivendo presos todo o dia.

2. Chegamos cedo, pelas dez horas e trinta minutos da manhã, num dia bonito e com uma temperatura a condizer (tinha chovido na véspera). A entrada da quinta é simples e larga, mui cuidada e esteticamente agradável ((com o senão de, na entrada, estar uma parede de escalada com ar de abandono (ou só para servir de painel?)). Fomos muito bem recebidos numa pequena casa de madeira e um café em chávena aquecida veio mesmo a calhar, Entradas pagas, e pernas para que vos quero, o cheiro a pão quente (uma oficina de pão à entrada da quinta merece realce especial) ainda obrigou a uma paragem repentina à entrada de um pomar com várias espécies de árvores de fruto, mas a vontade de correr e de ver (das crianças) fizeram a diferença, associando-se (divertidas) aos gritos, brincadeiras, alegria e curiosidade de outras crianças que tinham chegado mais cedo (algumas num parque infantil bem cuidado e com cores e onde o verde se destaca).

3. Depois, depois é que foram elas! Sim, é verdade, a quinta é um espaço pequeno mas muito agradável e bem organizado, com árvores e casas de madeira e animais e espaços de diversão, mas (pode lá ser!) os sinais de um desleixo irritante e de uma degradação continuada estão à vista de todos: manutenção igual quase a zero, orientação das crianças por monitores em ateliês específicos e brincadeiras criativas, igual quase a zero, e até as rãs e os sapos, num lago com nenúfares, desataram a refilar e a avisar que não valia a pena vermos a estufa votada ao abandono, que o celeiro é agora uma sala de jogos, que no telheiro há duas piscinas e mesas corridas para merendar com sanitários cuidados ao lado, e que o lixo por debaixo do palco está mal escondido e, e, e,.. O golpe de misericórdia (nada santo e sem adornos), coube a uma elegante avestruz que, à nossa saída, nos confidenciou: até eu já disse a quem manda nesta quinta que não é avisado meter a cabeça na areia à espera que tudo se degrade.

4. No fim do dia, pensando no que tínhamos visto e testemunhado, tivemos uma longa conversa com as crianças acerca da "Declaração de Cambridge sobre Consciência (2012), esta:

- Neste dia de 07 de julho de 2012, um grupo proeminente de neurocientistas cognitivos, neurofarmacologistas, neurofisiologistas e neurocientistas computacionais reuniram-se na Universidade de Cambridge para reavaliar os substratos neurobiológicos da experiência da consciência e comportamentos relacionados, em animais humanos e não-humanos. Ainda que a investigação comparativa neste área seja muito dificuldade pela incapacidade de animais não humanos - e frequentemente humanos - para clara e prontamente comunicarem seus estados internos, as seguintes observações podem ser feitas inequivocamente:

*O campo da investigação sobre a Consciência está evoluindo rapidamente. Novas técnicas e estratégias de investigação para animais humanos e não-humanos foram desenvolvidas em número abundante. Consequentemente, um maior número de dados é disponibilizado com mais facilidade, o que obriga a uma reavaliação periódica de preconcepções que persistem neste campo. Estudos de animais não-humanos mostraram circuitos cerebrais homólogos correlacionados com a experiência e a percepção da consciência podem ser seletivamente acessadas e manipuladas para compreender se são de fato necessários à referida experiência. Além disso, novas técnicas não invasivas estão já disponíveis para mapear os correlativos da consciência nos humanos. 

*Os substratos neuronais não parecem limitar-se às estruturas corticais. De facto, redes neuronais subcorticais que são estimuladas durante a vivência de estados afetivos em humanos, são também criticamente importantes enquanto geradoras de comportamentos emocionais em animais. A estimulação artificial das mesmas regiões do cérebro gera comportamentos e estados sentimentais correspondentes em ambos, animais humanos e não-humanos. Sempre que suscitamos comportamentos emocionais instintivos em cérebros de animais não-humanos, muitos dos comportamentos subsequentes são consistentes com a experiência de estados sentimentais, incluindo os estados internos compensatórios ou punitivos. Os sistemas associados ao afeto estão concentrados nas regiões subcorticais onde abundam as homologias neuronais. Ademais, os circuitos neuronais que suportam estados comportamentais/eletrofisiológicos de atenção, sono e tomada de decisão, parecem ter surgido tão cedo, no processo evolutivo, quanto a ramificação dos invertebrados, sendo evidentes em insetos e moluscos cefalópodes (e.g.: polvo)

*As aves parecem oferecer, de forma surpreendente, através do seu comportamento, da sua neurofisiologia, e da sua neuroanatomia, um processo de evolução paralela da consciência. Evidências de níveis de consciência próximo dos humanos têm sido, da forma mais dramática, observadas em papagaios cinzentos africanos. As redes e microcircuitos emocionais e cognitivos de aves e mamíferos parecem ser bastante mais homólogos do que previamente se pensou. Além disso, certas espécies de aves, como foi demonstrado nos padrões neurofisiológicos dos mandarins, exibem padrões neuronais de sono idênticos aos dos mamíferos, incluindo o sono REM, que se pensava exigirem o neocórtex dos mamíferos. As magpies [uma espécie de pombo], em particular, exibiram impressionantes similaridades com humanos, grandes símios, golfinhos e elefantes em estudos de auto reconhecimento da sua imagem refletida num espelho

*Nos humanos, o efeito de certos alucinógenos parece estar associado com uma disrupção no processamento cortical de feedforward e feedback. Intervenções farmacológicas em animais não-humanos com compostos conhecidos por afetarem o comportamento humano, podem conduzir a perturbações similares no comportamento dos animais não-humanos. Nos humanos, existem evidências que sugerem que a consciência de algo, tal como na consciência visual, está correlacionada com a atividade cortical, o que não exclui possíveis contribuições do processamento subcortical ou cortical primitivo. Evidências de que sentimentos de animais humanos e não-humanos emergem de redes cerebrais subcorticais homólogas fornecem evidências de qualia afetivas fundamentais evolutivamente partilhados

Declaramos o seguinte: “A ausência de neocórtex não parece excluir um organismo da possibilidade de experienciar estados afetivos. Evidências convergentes indicam que animais não-humanos possuem os substratos neuroanatómicos, neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência em linha com a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Consequentemente, o peso das evidências indica que os humanos não são únicos na posse dos substratos neurológicos que geram consciência. Animais não-humanos, abarcando todos os mamíferos e aves, e muitas outras criaturas, incluindo os polvos, também possuem estes substratos neurológicos”

5. As crianças participaram na conversa e entenderam o que foi sendo dito (mesmo quando se recuou a J.J. Rousseau e ao seu "coração sensível" e ao seu "aqueduto" numa brincadeira de infância)? Claro que sim!, tagarelas quanto baste, entenderam e condensaram tudo numa pergunta atrevida: amanhã podemos ir de novo à quinta pedagógica para olhar de forma diferente para a natureza e para fazer e comer pão com chouriço?, será que podemos dar maças aos animais não humanos?, podemos abrir o portão aos cães e dar uma volta com eles?*

* Registe-se que as memórias que recuperamos são as experiências de estímulos ao nível celular por todo o nosso corpo: o mundo é um ataque de sensações que cada fracção da nossa carne absorve - em cheiro, som, gosto, toque, odor - as memórias são muito mais do que pensamos sobre as coisas, são os prazeres e as angústias, as dores e as delícias que sofremos enquanto animais..., e tal facto é importante para entender o sentido da vida.

6. Nós, os adultos ((sob os efeitos dos "sentimentos de existência" (alô, A. Damásio!) que experienciamos na visita à "Quinta Pedagógica")). ainda nos demoramos algum tempo (para mais bem entender o sentido do desleixo e degradação que tínhamos testemunhado) no "Website" da "Quinta Pedagógica do Fundão", e concordamos numa pergunta: afinal para que (e a quem) serve a visível degradação física e de falta de atividades educativas da "Quinta Pedagógica do Fundão"?

Perguntas que sobram: qual o investimento (e qual a sua origem) que foi feito na criação da "Quinta Pedagógica do Fundão" e na sua manutenção?, quantas aldeias existem no concelho do Fundão e quantas crianças (do ensino infantil e do ensino básico) dessas aldeias já estiveram na "Quinta Pedagógica do Fundão" desde 2015?, é possível aceder a algum relatório sobre as atividades educativas desenvolvidas com crianças ao longo dos últimos dez anos?, existe, ou não existe, algum projecto de revitalização da "Quinta Pedagógica do Fundão"?

Adenda, com memória, e também.

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