Sobre a linguagem humana: variações soltas

Ontem, sei eu lá bem porquê, às tantas até sei, ao abrir um livrito maneirinho, que agarrei da minha mesa em madeira de cerejeira antiga, dei de caras com uma afirmação de L. Wittgenstein: "os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo". Estaquei perdido, a noite descia e eu sentia o calor, qual barco em rota à bolina, a soçobrar ao de leve. Mas, lúcido, sentia-me numa ligação primária com a terra (a modos que uma ligação com raiz), e interroguei-me: a linguagem humana nasce na ligação primária com a terra, ou aparece numa ligação secundária através de ver as coisas e olhar os outros seres humanos? Pergunta metal raro!, soprou-me a minha consciência crítica, que, trauteando, continuou dizendo: com o ver e com o olhar julgas aproximar-te das coisas distantes e de outros seres humanos próximos; mas faz agora uma pausa no julgamento e anda daí, vamos olhar as estrelas, a noite está cálida e o céu está límpido, as estrelas são luz que ainda agora está a chegar. Anuí, e fui, e apreciei, enlevado e absorto, as estrelas, muitas e coladas adrede num céu escuro ovalado, quando ela me recordou que Heidegger dizia que o céu é o caminho arqueado do Sol. Eu, enquanto mentalmente ligava com linhas imaginárias as estrelas á procura de uma mensagem de beleza, desabafei com os meus botões: a linguagem nasce numa ligação primária à terra e aparece numa ligação secundária com as coisas e com os outros humanos próximos. Ena!, exclamou ela divertida, é isso mesmo, os seres humanos, que são pó de estrelas (não esqueças!), ao verem as coisas distantes e ao olharem outros seres humanos próximos (a vista separa e aproxima), precisam de comunicar, precisam de comunicar para cooperar na vida quotidiana, porque ser humano é uma arte e não é uma ciência. Comunicam primeiro com gestos, e, depois, quando o organismo/corpo se ajustou biologicamente, comunicam com a voz a soar em palavras soltas e aladas, palavras que voam no ar como peixes na água e que até também enchem rios de literatura em prosa e poesia e música (com um destaque especial para Odisseia e a Bíblia). Siderado, embatuquei, mas, depois de respirar devagar, ainda me atrevi a perguntar: como se chega à ligação entre processo mental e organismo/corpo? Incrível, este (este sou eu?!, questionei-me) saiu-me melhor que a encomenda!, suspirou ela, e disparou: pergunta ao António Damásio sobre os afetos e sobre o "eu mínimo" e sobre o "eu narrativo", e fala também com ele, com tempo e com vagar, sobre a inteligência natural, a lógica da consciência e a biosofia (a biosofia é a sabedoria da vida), verás que te aproximas de um couto mineiro prenhe de metais raros, emocionais e racionais. Embatuquei de vez e, sem apelo e nem agravo, meti a viola no saco, mas com a certeza de que escrever (Alô!, Derrida) pode ser (é) desvelar a linguagem interior que nos anima. Quão alto é o preço da linguagem!, ouvi exclamar a voz musical da brisa suave que a noite levava a tiracolo em direção ao amanhecer.

Adenda, com memória e música.

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