As memórias tanto podem ser uma via sacra quanto podem ser uma via graça
(msg recebida)
Ontem, como quem não quer a coisa (de onde vem a intenção?, ui as destravadas "Guerras Libetianas"!), depois de matutar na sua mania de andar com as suas memórias a tiracolo, todos e cada dia, tirei a máscara que me dei há um ror de tempo (como tempo passa!), e vi-me no meu espelho emoldurado em castanheiro antigo. Senhora dos Aflitos!, lá estava eu, eu e mim, eu - a criança de há uns quantos tantos anos, e mim - epíteto e janela da alma da minha estrela de longe. Céus!, não mudei nada, sou ainda a criança de há uns quantos anos, e, pode lá ser!, o meu mim disse-me que devia apanhar o cabelo, foi epifania da minha memória autobiográfica, senti a beleza por perto, é na experiência da beleza que o mundo regressa a casa, pois não é? Sim?, ótimo!, diz, e eu concordo, diz que essa é a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre o passado que foi, a criança e o mim, pois não é assim? (Ups!, rimou). Logo que eu (eu e mim) acabe de escrever esta mensagem maneirinha, tornarei a pôr a máscara, assim será melhor, assim serei a máscara, voltarei à personalidade que construí para vulgo ver. É verdade, sim, voltarei à minha personalidade, mas também à minha autenticidade moral (alma bela é aquela cuja natureza moral é perceptível), tal qual vou chegando ao fim desta mensagem de palavras bojudas de sentido, mas não mudei nada, sou metáfora de mim. Quando quero, sei tirar a máscara, e essa é também uma vantagem que alimento quando leio as suas memórias em jeito de espontaneidade neuronal, quando consigo ver o mundo terreno num grão de areia e o paraíso celeste numa flor de esteva, quando me demoro num ciclo de canções de Schubert. Sem a experiência da beleza a vida não seria inteligível e não se levaria a sério, que me diz? Diz que a natureza, a arte, a forma humana, nos convidam a trazer a experiência da beleza para o centro das nossas vidas e garante que, se o fizermos, essa experiência de beleza oferecer-nos-á um lugar refrescante do qual nunca nos cansaremos. Excelente resposta, belíssima, gosto, e ficarei mais feliz ainda se apreciar a subtileza e a sublime autenticidade das melodias de Schubert.

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