Descartes: pensamentos e proteínas e palavras e tecnologia


Sete notas a tiracolo
Notas prévias
(1) Importa (antes de ler as "sete notas a tiracolo") ouvir esta conferência (bem como os comentários finais), para perceber quão importante continua a ser uma leitura atenta das “Meditações sobre a Filosofia Primeira” de Descartes…
(2) Alerta-se que, traduzido numa perspectiva actualizada, o problema "corpo - alma" transformou-se em "cérebro - mente" quando se passou a considerar o cérebro como substrato mental do espírito...
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René Descartes é normalmente apresentado como o iniciador da filosofia moderna: poderia e deveria também ser considerado aquele pensador que (provavelmente) mais contribuiu para o estudo da fisiologia humana. António Damásio (um neurocientista português) escolheu-o para nomear um dos seus livros importantes, dedicado ao estudo das emoções: “O Erro de Descartes[1]... Acusar Descartes de ser o responsável pelo atraso no desenvolvimento das neurociências (como alguns defendem) terá apenas sentido, se se ancorar o pensamento nas consequências da sua defesa do dualismo alma corpo ao longo da história do conhecimento: o corpo para os cientistas, a alma para os teólogos e para os filósofos.
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Erro de Descartes ou Erro de um Título? Assim, em 1996, titula a Professora Maria Luísa Ribeiro Ferreira um (interessante) comentário à publicação e divulgação, em Portugal, da primeira edição do livro “O Erro de Descartes” de António Damásio. Atente-se na forma como ela termina o seu comentário: “Se avançarmos com outros textos cartesianos nomeadamente o Tratado do Homem, as Paixões da Alma e as Cartas à Princesa Elisabeth, verificamos que uma das suas grandes preocupações foi a relação da alma com o corpo não, só no que respeita à separação mas também no que concerne á união dos mesmos. O “cogito” é realmente a “celebração do pensamento”, a afirmação da sua autonomia e diferença em relação ao corpo. Mas é-o numa primeira instância que Descartes ultrapassa. Fá-lo nas próprias Meditações pois na última coloca outras verdades a par do “cogito”, verdades que igualmente se preocupa em provar. São elas a existência do corpo (dos corpos) e a união do corpo e alma. “A natureza também ensina por estas sensações de dor, de fome, de sede, etc, que não estou apenas alojado no meu corpo como marinheiro no navio, mas que estou muito estreitamente ligado a ele, e tão misturado que componho com ele como que uma unidade (…) Porque sem dúvida estas sensações de fome, de sede, de dor, etc, são apenas certos modos confusos de pensar que se originaram na união e como que mistura do espírito com o corpo”. Só esquecendo este e outros textos como por exemplo a carta a Regius de 31 de Janeiro de 1642 e à Princesa Elisabeth de 21 de Maio de 1643, poderíamos dizer que Descartes negligenciou a relação corpo/mente ou que apenas se preocupou com o pensamento puro. Aliás, ele próprio confessa na referida carta a Elisabeth ter sido a temática da união um dos pontos mais frágeis do seu sistema, prometendo aprofundá-lo. E cumpre esta promessa nas Paixões da Alma, obra de maturidade, na qual a temática que Damásio diz ter sido negligenciada é amplamente desenvolvida. (…).
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A expressão “eu penso” pode ser um bom ponto de partida para abrir uma janela para um enigma ainda por resolver: o que é um pensamentoRafael Yuste, um neurobiólogo espanhol que lidera o maior projecto de investigação sobre o cérebro (projecto em desenvolvimento e financiado pelos Estados Unidos da América), não tem dúvidas que a descoberta do mapa do cérebro (com as redes neuronais em funcionamento) será de capital importância quer para saber o que é um pensamento quer para o desenvolvimento da prática da medicina.. No entanto, a expressão “eu penso” remete, sem dificuldade de maior no âmbito do pensamento filosófico, para o “cogito” de Descartes: penso logo existo. Nesta linha, imperativo se torna revisitar dois conceitos fundamentais da filosofia cartesiana - res cogitans (coisa pensante) e res extensa (coisa extensa) - recorrendo às “Meditações sobre a Filosofia Primeira – II.ª, V.ª e VI.ª): para primeiro os identificar; e para, depois, perceber um processo (interno) de elaboração do pensamento. Assim: (i) “Mas que sou então? Uma coisa pensante. O que quer isto dizer? Quer dizer: uma coisa que duvida, que compreende, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que também imagina, e que sente.” (Meditação II.ª ); (ii) “E, com certeza, hei-de em primeiro lugar trazer aqui à memória quais são as coisas, das recebidas pelos sentidos, que tomei agora como verdadeiras, e porque causas as julguei tais. A seguir, hei-de também considerar atentamente os motivos por que pus isto, depois, em dúvida. E, por último, reflectirei sobre o que, das referidas coisas, devo então crer.” (Meditação VI.ª); (iii) “Em seguida, noto que o espírito não é afectado imediatamente por todas as partes do corpo, mas apenas pelo cérebro, ou mesmo, talvez apenas por uma parte minúscula dele, ou seja, por aquela em que se diz que fica o sentido comum. A qual, todas as vezes que regulada do mesmo modo, faz aparecer no espírito o mesmo, ainda que as restantes partes do corpo possam encontrar-se diversamente movidas, como provam inúmeras experiências que não é necessário passar aqui em revista.” (Meditação VI.ª)... Com esta escolha cartesiana (que se impôs a partir do século XVII, no Ocidente) de separar o espírito (substância espiritual) do corpo (substância material), nasceu algo: o que se denomina de dualismo de substância.
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Olhar para o pensamento de Descartes a partir da leitura das “Meditações sobre a Filosofia Primeira”[2] parece ser um ponto de partida seguro, tanto mais que terá sido o ponto de chegada na vida de Descartes[3]. Pode ler-se na “Resposta à Sétima Objecção”: “Já disse muitas vezes nos meus escritos que a minha pretensão era imitar os arquitectos que para levantarem grandes edifícios onde a rocha, a lama ou qualquer outro solo firme está coberto por areia ou gravilha, abrem primeiro grandes fossas, e tiram de lá (…) a areia (…), para assentar depois os alicerces sobre terreno firme. Do mesmo modo, eu rejeitei, primeiro, como se fosse areia, tudo o que tinha reconhecido como duvidoso e inseguro, e tendo considerado depois disso que era impossível duvidar de que a substância que assim duvida de tudo, ou que pensa, existe enquanto dúvida, servi-me disso como de uma rocha firme sobre a qual pus os alicerces da minha filosofia”. Fácil é retirar daquela citação que a filosofia de Descartes partiu de uma questão epistemológica: o que é que posso saber com certeza?
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Pensador do seu tempo (uma revolução científica estava em curso) orienta aquela questão básica, dela fazendo derivar três outras questões: (i) qual é a constituição do universo que pretendo conhecer?; (ii) qual a relação entre os seus diferentes domínios (pensamento e extensão)?; (iii) é necessário postular a existência de um ser perfeito?. De facto, parece radicar aqui a originalidade da filosofia de Descartes, e também aqui parece começar a modernidade, seja: (i) pôr a pergunta de que se é possível conhecer e de quais são as condições de possibilidade do acesso às coisas e ao mundo; (ii) remover a questão ontológica (o que é, o que há) para uma questão epistemológica (o que posso saber), seja, sair do mundo percebido como objecto (e nós nele) para o mundo visto através de um sujeito. Uma leitura atenta das "Meditações sobre a Filosofia Primeira" (a primeira edição latina data de 1641) facilita uma aproximação ao pensamento de Descartes (não fossem - as meditações - escritas no fim da sua vida. 
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Tentemos uma leitura cursiva… As duas primeira meditações são um elogio à regra da dúvida metódica, dúvida muito bem explicada no "Discurso do Método". O objectivo é claro: eliminar todo o erro à procura de um dado imediato da consciência, do "cogito, ergo sum"... O eu é uma coisa pensante (res cogitans - imaterial) e o pensamento é uma ideia clara e distinta independente do sensível: tudo, mesmo os corpos, não são conhecidos nem com os sentidos e nem com a imaginação, apenas são conhecidos através do pensamento. Mas ter a certeza da existência real dos objectos exteriores, implica a existência de Deus porque nem as ideias dos corpos exteriores e nem as ideias das matemáticas nos garantem a existência dos objectos, apenas garantem a existência do "eu" que os pensa: imperativo se torna então recorrer à verdade de um Deus que produza essas ideiasAssim, na terceira meditação, prova-se que a ideia de Deus é inata: nunca a poderíamos ter se Deus não existisse. Assim sendo importa primeiro investigar se Deus existe e se não nos engana. Fácil... Seja: a perfeição objectiva das ideias tem que ter a sua causa na realidade de maior perfeição formal. Dois argumentos se perfilam: (i) um argumento ideológico, devemos atribuir à ideia perfeita de Deus uma causa de igual perfeição: Deus; (ii) um argumento cosmológico, a ideia de ser humano só pode depender da mesma causa que trouxe ao pensamento a ideia de Deus. Deus não nos pode enganar (este é a asserção base da quarta meditação) e não nos pode enganar porque o engano procedo de alguma privação: o erro é então fruto da vontade humana e pode ser evitadoNa quinta meditação explana-se o argumento ontológico da prova da existência de Deus: a um Deus dotado de todas as perfeições não pode faltar a existência, que é uma perfeição. Ora acontece que a existência não existe como propriedade necessária nos objectos sujeitos à mudança... 
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Há então que tratar o problema da existência das coisas naturais e da existência separada do corpo e da alma: este é o tema da sexta meditação. Por partes. Com a certeza de que existe a alma distinta da realidade corpórea, é possível examinar donde derivam todas as impressões e faculdades: (i) a sensação atesta-nos a existência do nosso corpo e de tudo o que percebemos fora de nós: a nossa natureza resulta da união entre a alma e o corpo (res extensa); (ii) os erros dos sentidos, que nos fazem desejar coisas más, dependem do nosso juízo e do funcionamento do sistema nervoso. os nervos transmitem sensações particulares locais. Seja: os dados apreendidos pelos sentidos merecem, em princípio, confiança mas na união da alma e do corpo está a fonte do erro.. Mas dado que a natureza humana tende ao bem, os erros dependem da nossa vontade e os sonhos são a falta de coerência da nossa experiência normal...

Nota-pergunta
Que diria Descartedisto?


[1] Damásio, António. 2011 (reedição). O Erro de Descartes. Lisboa: Círculo de Leitores.
[2] Tradução em língua portuguesa (Gustavo de Fraga, 1976): Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira. Coimbra: Livraria Almedina.
[3] Gallego, Antonio Dopazo. 2015. Descartes - Da dúvida metódica à conquista da certeza, Lisboa: Cofina Media SA.

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