A carta de Lorde Chandos: serve a linguagem para falar do mundo?

(Mensagem recebida)
Esta imagem que lhe envio (retirada de um postal de boas festas de Natal) e
o chilrear de pássaros, em fundo musical, são, meu caro, um mote adequado para uma aproximação à carta fictícia que Hugo von Hofmmannsthal publicou em 1902. Carta fictícia, qual carta fictícia? Estou já a imaginar a sua pergunta atarantada. O que eu passo consigo, meu caro, o que eu passo consigo! Vamos lá então. Os protagonistas dessa carta fictícia (Carta de Lorde Chandos) são dois: "Lorde Chandos, um fictício jovem poeta da Inglaterra do século XVI que se retira para o campo para se dedicar à escrita, e o filósofo empirista Francis Bacon, que apoiou o método científico na observação dos fenómenos e na experiência sensível. Lorde Chandos descreve ao seu famoso interlocutor as dificuldades com que se depara quando tenta confrontar-se com o que o rodeia através da linguagem". Calma, meu caro, calma, tenha calma, está siderado com a minha beleza e com o meu saber (e tem motivos para isso), mas não se amofine, deixe que lhe transcreva (da carta) apenas um parágrafo interessante: "Que enorme complexidade encerra uma simples prado de erva! Quantos matizes na maneira de a luz se reflectir nesses diminutos soldados verdes que a brisa move livremente, que os insectos escalam e devoram, que recordações evoca, que sensações provoca no pé nu!". Se Wittggenstein leu essa curiosa carta fictícia? Claro, óbvio. Se eu, meu caro, conheço o que são sensações num pé nu? Então não! Sabe bem que sim. Ah, e jogo de pés não é só futebol, não é não, garanto eu que até de futebol sei... Hoje fico-me por aqui, o domingo chama por mim, sempre eu, só eu, tenha um bom dia.
Adenda (nova mensagem recebida)

Eu não existo, meu caro, é o que me parece. Veja só. Um colibri saiu da imagem (um colibri, céus, que lindo!), poisou à entrada do meu terraço, e trouxe-me um poeminha do Raymond Carver:
“Vamos a suponer que digo verano
Adenda (nova mensagem recebida)

Eu não existo, meu caro, é o que me parece. Veja só. Um colibri saiu da imagem (um colibri, céus, que lindo!), poisou à entrada do meu terraço, e trouxe-me um poeminha do Raymond Carver:
“Vamos a suponer que digo verano
escribo la palabra "colibrí",
la meto en un sobre
y la llevo colina abajo
hasta el buzón. cuando abras
la carta te acordarás
de aquellos días y lo mucho,
lo muchísimo que te quiero.”
la meto en un sobre
y la llevo colina abajo
hasta el buzón. cuando abras
la carta te acordarás
de aquellos días y lo mucho,
lo muchísimo que te quiero.”
Está a ficar nervoso, meu caro, ui os seus ciúmes, acudam! Não se preocupe... Também não sabe quem é (ou foi) Raymond Carver? Olha a novidade!

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