Quem foi que falou em flexibilidade cognitiva?!

Contei, meu caro, assumo que sim, contei à Mafalda que ia
passar uns dias de férias. Que sim, contei-lhe, que daria uns bons passeios na areia molhada, mas que, desta vez, ninguém me iria tirar o meu pastel de nata matinal, a minha sobremesa de doce, e (ó céus) que iria escolher a comida que me interessasse. E, mais, disse-lhe que não iria querer saber se a comida (escolhida pelos meus olhos únicos) teria gorduras ou não, quero ir ao poço dos sabores, é isso que eu quero. Quanto me ri com a Mafalda! Olhe só a sequência que gravei com o meu super (e fabulástico) telemóvel, que linda e expressiva é a Mafalda, pois não é? Olhei, de soslaio, e vi a única fada que inicia as semanas de férias aos sábados; estava com ar um pouco cansado e vinha com intenção de conversar, queria tirar a limpo a razão de ser do meu ataque de ciúmes e só porque recebi uma mensagem dela fora de horas. Não me dei por achado. A Mafalda está cheiiinha de razão, provoquei, também eu não acredito, não oiço e não vejo, que se passa consigo? Acaso tem ideia que o excesso de açúcar e de gordura provocam alterações nas bactérias intestinais, alterações que se relacionam com uma perda significativa da flexibilidade cognitiva? Olha-me este! Olha um pedaço de inteligência minorca! Olha quem fala! Flexibilidade cognitiva, lá está ele e, de novo, com as filosofices, um dia destes eu dou-lhe a a flexibilidade cognitiva, até explode tipo vulcão; vou de férias e ponto, e como o pastel de nata e escolho a comida que eu entender, quero lá eu saber das gorduras! Ouvi-a reclamar. Não vou ripostar mais, retorqui, não a quero aborrecer; mas passe os olhos por este estudo, e verá a importância de interligar a microbiologia e a neurociência, seja, a importância de perceber o interesse crescente pelo genoma da flora intestinal (o metagenoma) e não só no funcionamento do organismo mas também no comportamento e no estado de ânimo. Mesmo cansada, estava linda de sandálias; percebi ainda que tinha um pingo de tinta branca num braço e não me fiz de modas: "não acredito que tenha andado a pintar paredes". O que eu fui dizer! Claro que andei a pintar paredes, disparou, e claro que dei lustro a todos os meus móveis de cerejeira, e claro que gastei gorduras, e claro que desfiz açúcares; e, garanto-lhe, se o tivesse tido perto de mim e à mão de agarrar, eu dava-lhe a flexibilidade cognitiva, até pelas paredes amarinhava, sei lá bem se o seu pincel resistiria. Ainda eu me preparava para engolir em seco, e já ela me dizia: a Mafalda reagiu como reagiu porque eu lhe contei o que lhe faria a si, se o tivesse comigo quando andei a dar lustro aos móveis e a pintar as paredes da minha casa... Não reagi. Vi que ela me rapinava um meu cachecol desleixado e alertei: o cachecol está aí desde o Inverno passado, assumo o meu desleixo, mas olhe que vai de férias, estamos no Verão, não lhe vai fazer falta. Claro que vai, meu caro, claro que vai, escorregadio e suave, vai andar, no fim do dia, a acariciar os meus lindos ombros torneados e a esconder o meu pescoço altivo, quem sabe o seu cachecol me faça lembrar de si, quando eu me apaixonar (perdidamente) por um surfista loirinho que há tempos trago debaixo de olho... Quem foi que falou em flexibilidade cognitiva?!
Adenda (mensagem recebida)
Acabo de ler, meu caro, este seu texto sobre a nossa conversa... Acendi a minha memória e, reconheço, foi mais ou menos assim. Adiante. Já me cheira a mar. já visualizo o contorno das dunas, o brilho fosco da areia e três gaivotas de asas abertas; olálá, nuvens a encher o céu, que é lá isso?! É corridinha esta minha mensagem rabiscada, mas ainda lhe revelo um segredo, seja ele, levo comigo o vício do direito... Ora diga lá se não tenho razão: dizem para aí que a pergunta do referendo de amanhã, na Grécia, não é perceptível e que o tribunal constitucional (o da Grécia, claro, o supremo tribunal administrativo) se deve pronunciar...; mas porquê, digo eu que vou de férias, porquê, então não se percebe logo que a pergunta não é perceptível porque está escrita em grego? Ai minha rica flexibilidade cognitiva, ui flexibilidade cognitiva, tanto tu passeias pelas ruas de Atenas! Vida a minha, férias estou a chegar.
Adenda (mensagem recebida)
Acabo de ler, meu caro, este seu texto sobre a nossa conversa... Acendi a minha memória e, reconheço, foi mais ou menos assim. Adiante. Já me cheira a mar. já visualizo o contorno das dunas, o brilho fosco da areia e três gaivotas de asas abertas; olálá, nuvens a encher o céu, que é lá isso?! É corridinha esta minha mensagem rabiscada, mas ainda lhe revelo um segredo, seja ele, levo comigo o vício do direito... Ora diga lá se não tenho razão: dizem para aí que a pergunta do referendo de amanhã, na Grécia, não é perceptível e que o tribunal constitucional (o da Grécia, claro, o supremo tribunal administrativo) se deve pronunciar...; mas porquê, digo eu que vou de férias, porquê, então não se percebe logo que a pergunta não é perceptível porque está escrita em grego? Ai minha rica flexibilidade cognitiva, ui flexibilidade cognitiva, tanto tu passeias pelas ruas de Atenas! Vida a minha, férias estou a chegar.
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