Mãe posso escrever sobre as férias?!


(Mensagem recebida)
Desatei a pensar (e a divagar devagar) na sua mensagem sobre eco-bairros, mensagem interessante e oportuna. A minha quotidiana preocupação com a regeneração urbana tem-me feito esvoaçar a franja, mais parece um helicóptero, vida a minha. Ui, olhe só (seja curioso), este tipo de arquitectura escolar em que me tenho demorado, horas a fio, noites adentro, dias a correr... Adiante que tenho algo importante para lhe contar. Hoje, no final da tarde, depois de um dia de muito trabalho (só eu, só eu, sempre eu!), pensando em si, fui lanchar e reparei que a minha cidade está longe de ser como a vila bonita que já foi. Agora está feia e suja e em muitos locais cheira mal, uma tristeza: um dos resultados de uma hipócrita democracia que lambe os pés a patos bravos sem escrúpulos e que hostiliza os cidadãos mais frágeis, quanto me lembrei do Leonard Cohen... Refugiei-me no meu cafézinho habitual porque, meu caro, os piropos ao andar do mesmo vestido "via graça" eram já mais que muitos (ninguém me tira da cabeça que o sol queima os miolos a alguns palermas). Dei por mim, no entanto, a sentir (sensação agradável, esta sim) aquele insistente restolhar do seu desejo por mim em dias de janela de horizonte-água. Adiante. Até no café, imagine só, a arrumação não estava propriamente exemplar, não gostei, mesmo. Matutava eu nos resultados (será?) deste estudo e, (ó céus, Jesus, Maria) nem de propósito, aconteceu "um pequeno apontamento de pintura fresca" que me salvou o dia e a má sensação anterior: uma menina bonita (filha da empregada do café) perguntou, mãe tens uma folha? Não, não tenho, respondeu-lhe a mãe. Oh! Mas eu queria escrever! Escrever o quê? Bem, também posso fazer um desenho... Não, não, tens de fazer uma composição e com, pelo menos, quinze linhas. Sobre o quê? Sobre o que tu quiseres. Mas não tenho papel! Pareceu desanimar e desistir do intento. Foi, então, que me lembrei de mim, de nós os dois, de rabiscos e de palavras soltas e de desenhos..., e disse-lhe: menina, olha, porque não escreves num guardanapo de papel? E, como o disse, também o fiz, tirei um guardanapo de papel, tão branco, tão liso, tão mim e estendi-lho prontamente. A menina, de olhos vivos e inteligentes (uma pequena feiticeira) olhou séria e calma para mim e aceitou, de imediato, o meu destemido desafio… Mãe, posso escrever sobre as férias?!

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