Fintou-me mais uma outra vez
Quando assim acontece, meu caro, fico piúrça da vida. Não entendo, não quero entender, claro que quero entender, eu sei lá já o que digo, quase ainda não preguei olho e daqui a umas horitas vou ter que viajar, oh vida a minha... Assim, linda e de olhos grandes pendurados e franja ao léu, se me dirigiu (ainda a geada estava a chegar neste outro dia de muito frio) a única fada que não deixa por mãos alheias o exercício do direito à indignação. Percebi a sua irritação, também eu já tinha conhecimento daquele horrível e miserável atentado; de mansinho disse-lhe que tentasse dormir um pouco e que durante a viagem rabiscasse uma justificação, se é que pode haver justificação, sublinhei. É isso, é isso mesmo, meu caro, retorquiu, é isso que eu vou fazer. Já arrumei no meu caderninho argolado três conceitos chave - equidade, reciprocidade e punição - tenho que olhar pelo lado da justiça, ai tenho, pois tenho, pois devo... Não percebo, interrompi. Novidade era se percebesse, soletrou, passa o tempo a olhar-me pelas frestas desta minha linda camisa de dormir, um seu olhar interessado que, diga-se de passagem, me causa pele de galinha, aquele sentir arrepiado a que o George Bubenik chama de piloerecção... Eu nem tugi e nem mugi, as palavras têm sempre sentidos diversos, entendi outro significado, o melhor seria esconder-me debaixo da minha manta de lã merina branca, e assim fiz. Ela percebeu a minha atrapalhação, sorriu divertida, estava agora mais calma... Pois é, meu caro, ciciou enquanto me rapinava a manta de lã merina (que raiva, a manta é minha, só minha), saiba que aqueles terroristas vão ser apanhados e vão ser julgados e devem ser punidos exemplarmente, não pode haver contemplações com o terrorismo... A propósito, continuou, apresentei uma comunicação um dia destes num seminário realizado num hotel da cidade invicta, e comecei assim: "Ainda que os magistrados, os jurados e os advogados atribuam a sua posição a diversos factores, nomeadamente a uma longa educação e a discussões filosóficas, o que se passa, a maior parte das vezes, num tribunal provém de intuições que os seres humanos têm desde a mais tenra idade, nomeadamente os sentidos da equidade, da reciprocidade e da punição...; e tenho a certeza que assim é porque discuti este assunto com o Renée Baillargeon e com o Michael Tomasello...". Preparava-me eu, lesto, para continuar a conversa mas já ela dormia a sono solto; passei-lhe a mão pelo corpo à procura da pele de galinha, procurei, procurei, e tive a nítida sensação de ver (e sentir) uns olhos grandes bogalhados à proa de um sorrisinho meu conhecido... Estava acordada pela certa! Fintou-me mais uma outra vez.
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