A dádiva da matéria
Vivemos um tempo de pormenores científicos prodigiosos e, especialmente, vertiginosos no domínio das neurociências. No que ao cérebro diz respeito, ficamos verdadeiramente espantados quando percebemos que quanto mais a ciência se aventura na explicação do cérebro, mais o mistério acontece, sem pedir licença a ninguém. Ou seja, o cérebro (uma simples massa húmida) consegue escrever e realizar filmes tão brilhantes como os nossos sentimentos e emoções, visões e imaginações, sons e contactos, desejos e frustações; e todos interconectados numa ilusão de tempo presente (mesmo quando vivida no passado) tendo como centro um ser (outra espantosa ilusão inventada e talhada pelo cérebro) que paira na vida como um fantasma. A pergunta passa a ser inevitável: alguma vez (ou alguém alguma vez) conseguirá saber como é que a matéria se torna consciente?
Olha a dificuldade! – Intrometeu-se no meu pensamento a fada sábia; e, desta vez e estranhamente, com alguns zumbidos abelhudos. Uma parte da resposta é muito simples, disse. A grande dádiva da nossa matéria é deixar-nos ser mais que matéria. Como? - Perguntei eu um pouco agastado com a sua abelhudice intrometida (ainda um dia hei-de perguntar a um caranguejo o porquê desta sua aproximação às abelhas).
A segunda parte do segredo por revelar, tenho-a comigo e não vou falar dela; apenas lhe digo que não pense que a química, a biologia ou a genética justificam a extraordinária historia que se inscreve e se escreve, dia a dia, nos milhões de células que falam entre si; e, saboreando o seu "plano alto" escolhido, continuou a fada: seja um pouco mais astuto e tente ir por um caminho diferente, perguntando, por exemplo, sobre quem somos nós os dois desde o primeiro dia do mundo; deixo-lhe uma pista pequenininha, sabe porque é que fadas coram intensamente?
Por três razões, respondi sem pestanejar. Porque uma fada gosta de manter o seu rosto pálido e interessante e, por isso, usa chapéus de palha, elegantes e de abas largas; porque recusa as rugas quando se transforma através dos poemas e da música; e, porque ancorando a sua forma de estar e de ser em acontecimentos fortuitos (as fadas acreditam no destino e duvidam que outros acreditem), a sua mente comove-se, sente um nó no peito, percebe as lágrimas a anunciar alegria e o seu rosto ruboriza-se sem palavras por perto. E penso, continuei, que nesses momentos em que a poesia domina a matéria, é que uma fada se confronta com o regresso à única realidade que a deixa perplexa e sem controlo: a experiência e as sensações do sentir que são dádivas da matéria e que também a ela fazem falta.
É verdade o que diz, assentiu, corando intensamente, mas não o deixo sem mais uma outra pergunta complexa. O que é que um romance, ou uma experiência, ou um poema, ou uma proteína nos ensinam sobre nós próprios? Sabe? Claro que não sabe. E não sabe porque as respostas à pergunta, fazem parte do segredo que tenho comigo. Mas ainda lhe digo que quando nos aventuramos para além do nosso conhecimento, tudo o que nos sobra é arte.
Naquele momento, adorei ver uma fada corada e emocionada. Percebi que ela estava aflita e senti que eu estava a presenciar um momento único.
Optei por me calar!
Optei por me calar!

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