O preço das ilusões

“Desde o século XVIII que os intelectuais reclamaram como seu dever e direito o lugar da clarividência. Como se chamavam Voltaire, Diderot, Lassing ou Rousseau, a pretensão não era descabida. Foi um glorioso papel que, em tempos menos complacentes e da maior concorrência, custou muitas vezes caro. Era mais fácil assumir o lugar do juiz ou do profeta no tempo do Voltaire, que de Hugo ou Zola, e incomparavelmente mais perigoso nos tempos não muito longínquos de Soljenitsyne, de Sakarov ou de Vaclav Havel. Esta extraordinária linhagem de contestatários da sociedade ou de um poder particularmente perverso criaram no Ocidente – e apenas no Ocidente – uma cultura de clarividência de que certos intelectuais, ou países, são os naturais sacerdotes e guardiões do templo.

Foi sempre uma ilusão, este monopólio da boa consciência, mas a ela se deve a ficção útil e necessária do que num mundo de desenraizável violência, religiosa, ideológica ou étnica – mera máscara da única violência que nunca dirá o seu nome, a vontade de poder em todos os domínios – existia essa espécie de raça isenta e lúcida capaz de, em nome da Humanidade, fazer a triagem dos Louvores que são o fruto da História. Esta ficção funcionou com certo êxito no pós-guerra, com o mundo hegemónico dividido em impérios do “bem” e do “mal”. Fora ficava o outro mundo – quase a humanidade inteira – onde a violência é, por assim dizer, endémica ou natural. O cruzadismos humanitário e ético tinha aí, graças aos céus e aos excedentes do mundo rico, o seu campo de aplicação e o seu ponto de honra. Para a cruzada mais complexa do combate político universal, maniqueistamente concebido, havia os “intelectuais”. De um lado e do outro de um muro que parecia eterno e caiu com grande estrondo num só dia. A partir desse dia, a intelligentzia europeia, e em particular a francesa, que era o modelo das outras, ficou sem emprego. Como quase toda a gente afinal. Porque é que S. Jorge lutou? Contra que dragão? O da china é mais antigo que o do Ocidente – que terá vindo de lá – e, ainda por cima, é a encarnação do poder imperial e de todas as virtudes. Quanto sangue na bela praça de Tiananmen seria necessário para nos mobilizar? E em nome de que “sagrados valores ocidentais?”

Durante algum tempo, os sobreviventes do antigo “império do mal”, ou os seus parentes – os Milosevic, os Karadzic e outros símbolos dos Ceausescu – indignaram, e não sem razão, as stars do humanismo ocidental, os Bernard Henry-Lévy, os Glucksman, as Susan Sontag. É verdade que houve cinema, e mesmo teatro, no palco de atrocidades que deixaram a europa impávida. Já a Albânia não mobilizou ninguém. E nem é bom falar dos Ruanda e dos Zaire, casos humanitários sem transcendência humanística. Mas nem essa rota do humanismo ocidental podia fazer mais do que constatar que com eles, e através deles, agonizava definitivamente a “ilusão lírica” do papel revolucionário que era a nossa desde a guerra de Espanha.

É uma constatação de pura melancolia. O mundo dos Malraux, dos Camus, mesmo dos Hemimgway, já era um pouco ficcional. Por isso vive ainda na nossa memória. Nada ficará dos Lévy, nem dos Glucksman, nem dos outros gurus do pensamento imaculado por conta de causas que nunca foram imaculadas. Não foi só a Europa política que tropeçou em Sarajevo, em Zagreb, na África. Foi uma Europa que durante dois séculos se tem embalado por conta própria na ilusão de ser o continente ético por excelência. Sabemos até que ponto era uma ilusão. Mas não a ter tido teria sido pior ainda”. (Pequeno ensaio de EDUARDO LOURENÇO publicado na Revista VISÃO de 17 de Abril de 1997)

Acabamos de ler um texto de um dos maiores pensadores portugueses que é absolutamente magnífico: um pouco difícil, muito sintético e escrito numa linguagem contida mas que revela não só um conhecimento profundo da história do ocidente e da realidade política e social que então se vivia quanto revela à saciedade o início trágico de um mundo Ocidental em decadência.
Hoje, à actual União Europeia não chega a informação e o saber (a sociedade da informação e do conhecimento), falta-lhe a sabedoria que se traduz em valores humanos e sociais para pôr a economia ao serviço das pessoas. Quando nesta actual União Europeia (liderada por políticos medíocres e sem qualquer tipo de clarividência) esses valores foram substituídos pelo MERCADO, os resultados estão à vista de todos.
E o preço das ilusões que alguns políticos venderam aos portugueses foi tão alto que, nesta altura, as ilusões são pagas por quase todos nós com “língua de palmo”, enquanto alguns responsáveis por essa venda das ilusões (que deviam ser punidos, no mínimo por negligência já que a incompetência não é crime) assobiam para o lado ou passam férias noutros paraísos.
É triste e vergonhoso que assim seja. Mas é mesmo assim, ponto.

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