sábado, 10 de março de 2018

É certinho: há passáros que (a cantar) parecem ser humanos ...

Resultado de imagem para australian pied butcherbird
(Mensagem recebida)
Pense o que pensar, meu mais que ciumento admirador de mim, diga o que disser, lhe garanto, a imagem é mesmo de um pássaro cantor (que vive na Austrália, imagine só o quê de insólito), um pássaro (na imagem vivo e presente e livre e alodial) que, sem tem-te nem mas, se instalou no muro do meu terraço com linha de horizonte-água. Verdade, verdadinha, foi assim, vamos lá... Acordei cedo (uma cretina de uma constipação não me larga, vida), ainda o dia chegava molhado e brumoso, e logo comecei a ouvir uns trinados que conheço de gingeira (sabe que também sou cantora, soprana, sabe, pois não sabe, óbvio que sabe). Não pode ser, pode lá ser, não pode ser, quão tanto me agrada a cantoria, vem do meu terraço, Nossa Senhora da Música me inspire e me ajude, suspirei. Adiante. Pé ante pé, espreitei para o meu terraço por uma nesga da janela; e, olarila, lá estava ele a olhar-me com olhos grandes e bico em riste, a vaguear por mim e a cumprimentar-me num palrar trauteado melífluo cadenciado: olá, ainda és mais linda, mais linda do que tinham dito, és deliciosamente divina e torneada, o teu odor alegra-me a alma. Não arredei pé, que libertino (os pássaros não têm alma, pois não?)! Ele saboreava o atrevido piropo e eu encafuei um palavrão, mas atrevi-me lampeira (engracei com ele, que quer, sou assim, impulso meu ingovernável, só em mim conheço os outros) e disparei: tu aqui, no meu terraço, a falar comigo, que vieste dizer-me? Digo que sou como tu, ora essa, respondeu-me sussurrante, digo-te que sei várias canções; e digo que, por isso, sei brincar com a música, tal qual tu fazes quando treinas a tua bonita e admirada voz de soprano. Fiquei sem fala, meu admirador de mim quase perfeita mas muito asadinha, até corei com num arrepio desnorteado, pássaro de um catrino. Mais, garanto-lhe que ainda o ouvi dizer: se tens dúvidas a respeito do que eu te digo, lê este estudo, eu não te trapaceio. Resolvi protestar (naquele meu jeito de raposa fina), de nada me valeu, naquele instante dei-me conta que tinha sonhado com um pássaro no meu terraço. Porém, meu ainda admirador de mim, é certo, não tem espinhas, sei o que digo, é certinho: há pássaros que (a cantar) parecem ser humanos com queda para a música.

Sem comentários:

Enviar um comentário