terça-feira, 12 de setembro de 2017

... o silêncio é o húmus do Ser

(Mensagem recebida)
A ver, a ver, meu admirador de mim, fiquei de sentimentos à banda e emoções à solta quando li as suas palavras sobre as Meditações de Descartes. Não era ele (bem que eu pergunte), não foi ele que entendia o corpo apenas, perplexidade a minha, como uma máquina? Mal pareceria que eu, inteligente como sou, não botasse faladura sobre as suas notas sobre as Meditações sobre a Filosofia Primeira. Palavras, palavras e mais palavras vi eu no seu texto, o mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência, dizem, e eu concordo. Por causa disso, veja bem, até penso dar umas dicas a esse tal de Rafael Yuste. Será que ele sabe mesmo que no cérebro as palavras vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas? Alguns afirmam que essa é a explicação para o facto de as pessoas fazerem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Depois das palavras, záscatapraz, vêm os discursos: conjuntos de palavras diversas encostadas umas às outras, em equilíbrio instável devido (por vezes) a uma incipiente sintaxe, até acontece que, em determinados momentos, apenas um gancho de tenho dito as consegue segurar. Um discurso (os seus textos sofrem dessas maleitas) pode ser um brinde ou até palestra, os discursos oferecem coisas e loisas, explicam temas e problemas. Depois de um discurso é que são elas, seja: as palavras deitam-se nos papéis, pintadas de tinta, para que na rádio e na televisão outros as atirem ao ar, coitaditas. Vi, meu admirador de mim, vi há bem pouco tempo (sabe que está em curso uma campanha eleitoral, pois não sabe?), digo, ouvi um político de gingeira, a discursar sobre as vantagens do regadio no desenvolvimento da agricultura. Santo Deus, as palavras do discurso (dele) escorriam como água, os meus ténis verdes fabulásticos logo me avisaram em murmúrio: olha, tanta palavra, tanta água a jorrar, cuida-te, parece um dilúvio. Os meus ténis a falar comigo? Não acredita, nem eu. O que sei, isso sei, é que nos discursos dos políticos é preciso mondar as palavras para que a sementeira se mude em seara. Adiante que nem eu sei por que segredos tanta inteligência me foi dada, que quer, sou defensora do holismo. Depois das palavras e depois dos discursos, vida, há os silêncios. Gosto, digo, os meus olhos grandes gostam muito do silêncio que é mestre de todas as lições. Dizem-me eles que o silêncio não se ouve, que escuta, que pesa, que examina, que cura, que fala. Mais: dizem-me eles ainda (que sábios) que as palavras não largam o silêncio, que caem sobre ele sem dó nem piedade, umas boas outras más. Se eu sei o que é o silêncio? Então não! Óbvio que sim. O silêncio conhece o real valor do tempo, o silêncio é o húmus do Ser. 

Sem comentários:

Enviar um comentário