segunda-feira, 26 de junho de 2017

A espiritualidade também é uma faculdade mental?

Foto Emotions
Nada disso, nadica de nada, nem pense, essa sua ideia não tem pernas para andar. Com o calor que estava, juro, até pensei que estava a sonhar, mas não: era a mesma, sempre a mesma fada e cada vez mais guicha, era ela torneada e mais uma vez de túnica azul com punhos vincados e olhos faróis a iluminar o lusco fusco. Precipitou-se, respondi-lhe, seja: a minha ideia de explorar a metáfora "O moinho de Leibniz" tem a ver com facto de perceber (tão só) se o cérebro é apenas matéria. Pois sim, ciciou enquanto me rapinava o meu único lençol de linho velho, sei bem que essa metáfora é uma confutação da tese de que o pensamento é gerado pelo cérebro (registe que a expressão "o cérebro pensa" é um oxímoro), mas, inisistiu, Leibniz estava errado: o que conta são as interacções que se estabelecem e das quais emerge o pensamento, imagine que em vez de um moinho ele tivesse escolhido a metáfora de um formigueiro, tudo seria diferente. Adiante, suspirei, consigo por perto todo eu sou formigueiro, até os pensamentos são trambolhos, importa é agir, desentorpecer pernas e braços, afinal, questionei, diga-me: o cérebro é ou não apenas matéria? Claro que não é, trauteou, claro que não é, como poderia o cérebro ser só matéria se ele gera a espiritualidade? Sorri divertido, e disparei sem tem-te nem mas: gera a espiritualidade, não me diga! Não se deu por achada, e: a espiritualidade (um conceito mais amplo que religião) é uma faculdade mental como a inteligência e a linguagem também o são; e na espiritualidade das coisas também eu habito. Embatuquei sem apelo nem agravo e dei asas ao tempo e liberdade aos pensamentos contidos, quando atentei na imagem que ela me mostrava: o cérebro a fazer de balão, brincadeirinhas de fada ternurenta. Ainda me recordo de que falamos de uma segunda realidade, daquela realidade em que sentimos, pensamos e somos: realidade onde o suor e a alegria unem o corpo e a alma em momentos únicos e alongados, curtos e compridos. Escusado será dizer que o meu preferido (e único) lençol de linho velho já não é meu, é dela.

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