Tenho andado enrolada com o Pedro Zarco

O Último Cabalista de Lisboa
Tenho uma confissão a fazer-lhe, meu caro, tenho andado enrolada com o Pedro Zarco, um pretenso cristão-novo cheio de mistérios e iniciado na cabala… A cara de fuinha-linda da única fada que não dorme, olhava-me à procura da minha reacção. Fiz que não a ouvi… Cristão-novo, pensei comigo, cheira-me a provocação e com o objectivo de se armar em guicha-sábia, mas ela vai ver. Vou ver o quê? Por acaso sabe quem é o Pedro Zarco e porque é que eu me interessei por ele? Perguntou em jeito de vá diga lá. Ora essa, claro que sei, respondi, o Pedro Zarco é uma figura de um romance histórico “O último cabalista em Lisboa” que, de uma forma original, relata o que aconteceu na Páscoa de 1506, durante o massacre de cerca de 2000 cristãos novos; judeus que tinham sido forçados a converter-se ao cristianismo em 1497. Que espertinho! Soltou-se-lhe a exclamação numa gargalhada desprendida. Afogueei a ciumeira no seu rosto, continuou, mas não se apoquente; tenho andado enrolada com o Pedro Zarco porque ando à procura de felicidade e porque pretendo enriquecer de novo a imaginação do Richard Zimler para quando ele refizer o romance; e até já lhe falei dos manuscritos do Boitaca que, no anos de 1502, lançou a primeira pedra do Mosteiro dos Jerónimos perto da praia do Restelo. A propósito, sabe quem é que soprou ao Richard o argumento para o livro “À procura de Sana”? Zarco, Boitaca, Sana..., que raio de nomes ela inventa , suspirei! Não ligou ao meu suspiro e, de franja solta e pestanas fixas, garantiu que já tinha o mote para o novo livro de Richard Zimler: não existe nenhuma fórmula para o sucesso, excepto, talvez, pela aceitação incondicional da vida e do que ela traz. Vai ficar aborrecida comigo, arrisquei, mas conheço essa frase; é do "grande" Arthur Rubinstein, isso eu sei. Nem pestanejou e ladeira, segredou-me, verdade, roubei-lhe a frase, a ele que também era judeu com imenso talento e que adorava tocar Chopin, brincando com as teclas do piano. Não está, perguntei-lhe, a baralhar datas históricas? Então os judeus são sempre idênticos na maneira de estar e de ser? Nem todos, nem todos, martelou as palavras; ao longo do tempo, alguns deles, atacados de preguicite crónica, foram perdendo muitas qualidades; e se tiver dúvidas, ponha os olhos em si. Ponho os olhos em mim?! Não acredito, não pode ser, não ouvi; ela disse que eu sou, aos olhos dela, um judeu preguiçoso e com poucas qualidades?! Disse mesmo?!!!

Adenda
Acabo agora de ler neste seu texto arrazoado, meio atrapalhado e estranho (diga-se de passagem), a conversa que tivemos, a propósito de um livro de Richard Zimler. Não entendeu nada e baralhou tudo, que vida a minha! Vamos aos factos. Não ando enrolada com ninguém e nem quero andar (eu é que não quero, ouviu bem?). E que fique bem claro, eu não lhe chamei judeu com poucas qualidades, disse apenas que, as que tem, são poucas: o que agora se vê à vista desarmada… Apenas o desculpo porque sei das partidas que os seus ciúmes crónicos lhe pregam todos os dias por minha causa. Feito este esclarecimento, sempre lhe deixo um mote para que escreva um texto bem mais interessante. Ora leia o que eu escrevi no meu diário rosa-velho: “Ontem, manhã cedo e manhã límpida, vi uma criança-menina a riscar um muro esboroado de um velho bairro com um pedaço de carvão, tentando dar à escala das letras que desenhava uma dimensão maior que a do seu próprio corpo. Suspensa no olhar e com o meu rosto aberto a uma alegria incapaz de conter, segui o trajecto da mão da criança-menina como se dela nascesse o milagre da criação”. Meu caro, a minha curiosidade apaixonada soprou-me um título para o seu novo textinho: “Risco Inadiável”. E aí tem um segredo-sugestão que não pode revelar a ninguém (e deixe-se de mexericos): inspire-se em mim, porque, por obra e graça da alquimia das fadas, eu sou aquela criança-menina que risco e (arrisco) para aprender e que aprendo para lhe ensinar a si todos os dias. Fico à espera do seu textinho; dê-lhe cariz de labirinto de descobertas… Eu estou sempre à sua espera!

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