Eu dou-lhe o Adão capado, ela vai ver!
Não imagina, meu caro, o
fogo eléctrico e subtil que brinca dentro de mim por sua causa, acordou-me tagarelando apressada a fada-só-emoção.
Dei por mim a olhar para ela (que partilha a minha vida errante) e
perguntei-lhe pela razão de ser daquele fogo eléctrico e subtil e da sua pressa
toda. Não se faça de achado, respondeu,
porque sabe muito bem que o fogo eléctrico e subtil é uma metáfora…, sabe bem
que junto de si me encho de raiva, receosa de derramar amor não correspondido;
quanto à minha pressa é muito simples: hoje
vou a uma cidade que, como eu, é invicta; não quero perder o comboio e o meu
lugar no comboio (como na vida) é sempre na carruagem da frente. Eu, mudo de espanto,
quanto mais a olhava, mais gostava dela: reparei
no seu rosto lindo e altivo e o seu andar era desenvolto e livre em linhas suaves e íntimas em posse de si mesmas, e a sua voz
tinha um som delicado. O meu coração, apressado e a bater descompassado,
gritava-me que lhe oferecesse ternura e um abraço de corpos-colados…; e eu, a
sentir-me um Adão expulso do paraíso manhã cedo, tremia sem saber o que dizer.
Sei que custa a acreditar, mas garanto que é verdade (eu seja ceguinho de gota serena
se não é verdade). Garanto que o meu coração gritou e garanto que até me ameaçou
sem dó nem piedade: se a deixares partir e
se ela não prometer (a pés juntos) que volta, acabou-se tudo; vou com ela, aninho-me nela e
nunca mais me pões os olhos em cima…, amanha-te como puderes. Sem ela e sem o meu coração, o que vai ser de mim, suspirei num infeliz de calimero! O seu sorriso (de mãos dadas com os olhos bogalhados a piscar envergonhados) em colheitas de amor (e pendurado na franja em desalinho) não se fez esperar, enquanto ela despedindo-se galhofeira, trauteava em jeito de resposta ao meu suspiro desalentado e desconfortável: não tenho ideia de ter visto algum Adão capado, mas há sempre uma primeira
vez..., como esta minha adorada vida é tão surpreendente... Eu dou-lhe o Adão capado, ela vai ver!
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