Nesse instante mágico até as estrelas tremeluziram

Ainda não sei muito bem porquê…, mas a afirmação - “Um coração que não canta, não escreve”- há vários dias seguidos que me persegue, para qualquer lugar para onde eu vá ou fuja. Para onde eu vá ou fuja, registe-se, à procura de estabelecer relações com todos os aspectos sensíveis à minha volta, trocando possibilidades com cada forma que se agita, com superfícies rugosas ou macias, com entidades trementes de frio ou calor, até com uma mosca pousada numa folha de erva; e a quem respondo com sons, gestos, movimentos, assobios, suspiros ou com diminutas alterações do meu estado de espírito. Nestes aspectos sensíveis da natureza confirmei que os olhos, a pele, a língua, os ouvidos, as narinas são as entradas por onde o nosso corpo recebe o seu alimento de alteridade. Sim, mas também aprendi que o contacto com o chão tangível e com o céu imenso e azul-sensível, nos orienta sempre para quem nos faz falta…; mas não se desvelou, isso não, o significado da afirmação que a todo o momento (noite e dia) me persegue, sem tréguas. Ora essa, sem tréguas, que exagero! Essa afirmação, meu caro, é minha e ela foi a forma que encontrei para o abanar nessa sua modorra ciumenta e para o apresentar ao mundo dos insectos e das plantas; mas nunca se esqueça que eu sou a sua razão de ser: eu que luto, que sofro e que festejo consigo, mesmo quando tenho o meu coração aflito e pequenino. - Ouvi exclamar distintamente uma (a minha) fada que vislumbrei a espreitar pelos rebentos delicados de uma árvore altiva, no silêncio do marulhar das ondas enroladas e sob um céu semeado de estrelas obstruindo as trevas. Não entendo o que pretende dizer-me, respondi-lhe. Claro que não entende, disse sorrindo. Não entende porque não está a par da nova revolução psicológica... Calma, tenha muita calma e não se enerve, continuou com ar amanteigado e gracioso; não se precipite que eu explico tudo, pacientemente como é meu timbre, e oiça-me com ouvidos atentos. O meu amigo Jean-Michel Oughourlian acaba de publicar um livro (o meu incentivo foi decisivo, claro) em que diz que existem três cérebros: o primeiro é o cérebro do conhecimento, da inteligência, da motricidade, da sensibilidade, da linguagem e da memória; o segundo é o cérebro das sensações, das emoções e do humor; o terceiro cérebro é o cérebro da relação, da reciprocidade, do mimetismo. Diz mais, interrompi-a, diz que o terceiro cérebro é o resultado das investigações sobre os neurónios-espelho desde o início dos anos noventa do século vinte; investigações que culminaram com o desvelamento do conceito de empatia, ou seja: empatia é um processo mental que permite não só entrar no ser de um outro e saber o que ele pensa e sente quanto desencadeia a vontade de conhecer a sua experiência e de partilhar a sua vida. Olálá… Jesus, Maria! O coração dele está a cantar porque ele sabe que eu sou, simultaneamente, a sua originalidade e a sua prioridade. – Sussurrou ela, com os olhos grandes e brilhantes à proa de um sorriso lindo e maneirinho. O sussurrar dela desnorteou-me os sentidos e a minha impressão imediata foi de imponderabilidade. Nesse instante mágico até as estrelas tremeluziram...

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