Asadinha como ela!
Em jeito de sussurro, ainda
a manhã era menina, a minha fada preferida acordou-me de mansinho, como uma
borboleta que acorda a manhã, dizendo que andava intrigada porque, num almoço
de familiares seus (eu nem sabia que ela tinha familiares muito chegados!), lhe tinham
perguntado se ela era filha da Maria. Não entendo patavina, nadinha de nada! - Respondi-lhe ensonado, fazendo fingimento de que não queria perceber… A verdade é que estava deveras impressionado com o seu lindo aspecto que mais parecia um rio de infância perdido no tempo: cabelo apanhado com dois ganchos de pérolas
brancas, olhos grandes, mãos pequeninas e um pescoço de perfil altivo que causava arrepios na espinha.
Claro que não pode entender, interrompeu-me
intempestivamente, porque não sabe que a Maria é irmã da minha mãe. E, com um
ar de graça e uma carícia de mão apressada para me tranquilizar, assegurou-me que sabia muito bem que
herdamos o nosso mapa genético e que nascemos num mundo sobre o qual não temos
qualquer poder de decisão durante os nossos anos formativos; disse ainda que
gostava de estar perto de mim sem palavras prévias e que não ouviria nada
se eu lhe tentasse vender (mesmo que a pataco), como possíveis explicações, teorias lógicas sacudidas e pseudocientificas. Sendo verdade
o que acaba de afirmar, atrevi-me a
dizer espreitando o rosto dela, então não tem que se admirar de ser parecida
com a sua tia; não vejo onde esteja a sua surpresa, sabendo-se que a biologia
só por si e sem influência do meio não determina a personalidade de cada um de
nós, mas sabendo-se também que nos torna, bastas vezes, parecidos uns com os outros; fisicamente mais que não seja. Meu desajeitado
cientista de trazer por casa, invectivou-me,
impõe-se um momento de franqueza quando falo consigo; claro que eu sou e serei, sempre e para sempre, parecida com a minha mãe (a minha mãe é uma jóia), e sou e serei, sempre e para sempre, filha da
minha mãe (o que não é seu caso que até, por vezes, me parece ser um filho da
mãe; mas eu desculpo-o, não se amofine). As nossas mentes, a da minha mãe e a minha,
martelou as palavras, são propícias à poesia e à magia e são marionetes de sonhos porque interagem com o
universo; e esta interacção é algo que a ciência ainda não consegue explicar
(mais tarde ou mais cedo, chegará o dia em que a física se encontrará com a
neurociência e, nessa altura, ficará desvendada a relação entre matéria física e experiência
subjectiva, garanto-lhe). E sempre que falo com a minha mãe mais intimamente, murmurou emocionada, tenho a certeza
de que aquilo a que chamamos nós (ela
e eu, claro; não estou a falar de si, não se arme em vaidoso!), transcende
tanto a nossa intuição, a nossa capacidade de pensar e a nossa introspecção que
prefiro pensar e dizer que o nosso nós
é “algo que está para além de nós” e com
quem tento, afincadamente, falar com os meus dedos rabiscando (linhas, triângulos, círculos, pontos, rectas e curvas) em timidez e em rubor e rumor de risos e de encantamentos... Para espreitar o mundo e a vida. Inesperadamente e a brincar de realidade, perguntou desenhando com os olhos grandes um atalho franzido e intrigado… Mas como (e porquê) é que alguém pode perguntar se
sou filha da minha tia Maria? Bem mal que lhe
pergunte, interrompia-a disfarçado de
barba branca, não se recorda de lhe terem dado alguma outra explicação que poderá ter levado a pensar que era filha da sua tia Maria? Se quer saber, gaguejou sorrindo e atropelando a voz e o riso, disseram que a minha tia
Maria fazia rendas bonitas e prendadas, que era linda de morrer, que tinha um talento inato para ser o que quisesse ser na vida e que (imagine só!) eu era asadinha como ela!
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