A travessia de quatro mundos

Há exactamente dez anos, estive em África mais uma vez. Foi lá que aprendi o que pode significar um acto artístico a partir da fruição do visual da paisagem (as cores quentes e livres das imagens, os horizontes largos e longos, a beleza e a sensualidade da natureza e da vida); e, sobretudo, a partir da fruição acolhedora da música (o ritmo e a sua comunicação ancestral, o movimento ondulante e pontuado, as palavras e os gestos a correr atrás dos sons).
Aprendi assim que a percepção de um acto artístico consiste numa emoção única que um espírito transmite a outro espírito, especialmente na música; e, neste caso da música, para que tal possa acontecer, é necessário atravessar quatro mundos: o mundo físico, onde nascem as vibrações; o mundo fisiológico que as capta; o mundo psicológico que as trata e interpreta; e o mundo cultural, onde elas se projectam.
Por vezes, como se pode confirmar em SONGS FROM THE BAOBAB, os quatro mundos combinam-se, delicadamente, para nos transmitir emoções que vibram na dimensão fractal da melodia, da modulação e do ritmo e que nos demonstram que o prazer da música ocupa o tempo com o som numa resolução de auto afinidades de espírito nas canções para crianças e que começam e terminam com uma voz de criança; afinidades de espírito que se manifestam de forma muito mais intensa, quando o prazer da música se conjuga criativamente com o prazer das imagens que ocupam o tempo com a matéria, lá onde a imaginação se diverte em traços livres e sugestivos.
Sabemos que o nosso cérebro adora ter problemas para resolver e que, sendo essa a sua natureza, se delicia, inventando-nos, na travessia lenta ou rápida (e lenta/rápida) desses quatro mundos, momentos únicos de fruição artística onde  a vida se desvela, desvelando-se.
Dizem-me que foi em África que a vida humana começou…
E eu acredito que sim!

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