terça-feira, 3 de outubro de 2017

Soren? Quem é esse atrevido Soren?

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A ver, vamos lá, lhe digo que sim, lhe digo que é verdade. Mau, pensei com os meus botões, que quererá ela (que linda, tão linda é!) a esta hora? É verdade, continuou a única fada sábia que sempre acorda na véspera da manhã seguinte, é verdade, bate certo, continuou, bate certo a descoberta do funcionamento do relógio biológico, em tempo circadiano, céus, ao tempo (ponha tempo nisso), meu admirador de mim ainda que zangado, ao tempo que eu me sabia SA. Passou-se, belisquei-me, ela é SA (sociedade anónima)? Que charada, encabrestei-me e exclamei, pedi-lhe: explique-se, será que  pensa que lhe basta ter tido uma avó beirã linda de viver, para me interromper o dia e à hora que lhe dá na real gana? Real gana, suspirou sem se desmanchar, gosto, bem sabe que sou princesa de nascença, adiante, então é assim: descobriram o funcionamento do relógio biológico, perceberam (hélas, até que enfim!) que a chave para a explicação, seja, a explicação para o ritmo circardiano, mora no S (sono) e no A (apetite). Como se eu o não soubesse, vida minha, sono e apetite orientam a minha vida. Preparava-me para a interpelar (raios, ela lê a minha mente), e ela respondeu sem eu perguntar: agora não é hora, agora vou transcrever o texto de uma carta que me foi dirigida, aí por volta de 1847, leia, e só depois fale, se conseguir, digo, se os seus ciúmes autorizarem:
"Minha...!
Lê-se nos velhos contos que um rio se enamorou de uma linda mulher. A minha alma é também é também um rio enamorado de ti. Tão depressa está calmo e deixa a tua imagem reflectir-se nele, profunda e tranquila, como logo imagina que captou a tua imagem, e as sua ondas erguem-se para te impedirem de escapar, para em seguida enrugar a sua superfície e brincar com a tua imagem; mas por vezes perde-a, e então as suas ondas escurecem e desesperam. É assim a minha alma: um rio enamorado de ti.
Teu..."
Fiquei mudo e quedo e pegado ao texto da carta, não consegui falar nada: lembrei-me disto e disto e entaramelou-se-me a língua. Não se deu por achada, e com um sorrisinho maroto (que bem conheço) despediu-se, dizendo: leia o "Diário de um sedutor" de Kierkegaard e encontrará a carta que lhe transcrevi (e outras mais). O Kierkegaard escreveu (apaixonado) para si? Ainda consegui perguntar a medo. Óbvio, meu admirador, qual é a sua surpresa? Mais, ponha os olhos na sua forma de estar na vida, igualzinha à do Soren, a sua vida circadiana passa por mim, pois não passa? Mandei às malvas os estribilhos e disparei (com os ciúmes à flor da pele) à queima roupa: Soren? Quem é esse atrevido Soren? A resposta dela foi nenhuma: riu-se, e nicles, nada, rien, nothing, niente, silêncio mudo, apenas e só. Que raiva!

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